A Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, está no centro da maior recuperação extrajudicial do país, segundo a imprensa econômica. A mudança do código das ações preferenciais para RAIZ55, explicada em outra matéria, ocorre nesse contexto.

Homologação e adesão dos credores

Em 30 de julho de 2026, a Raízen informou em fato relevante que o plano foi homologado pela 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca Central de São Paulo. De acordo com o NeoFeed, 81,6% dos credores quirografários aderiram e nenhum apresentou contestação. O plano foi apresentado em 5 de junho.

Os valores variam entre as reportagens: o NeoFeed cita R$ 65,14 bilhões em créditos sujeitos à reestruturação (mais R$ 33,49 bilhões em dívidas entre empresas do grupo), enquanto o Times Brasil fala em R$ 61,4 bilhões de dívidas reestruturadas. As matérias não explicam a diferença.

O que o plano prevê

  • Conversão: 45% dos créditos viram participação acionária, a R$ 0,25 por ação; os outros 55% são substituídos, refinanciados ou aditados em novos títulos de dívida.
  • Shell: aporte de R$ 3,5 bilhões em dinheiro, o piso do aumento de capital.
  • Aumento de capital: de R$ 3,5 bilhões até R$ 39,8 bilhões.
  • Ometto: possível aporte adicional de cerca de R$ 500 milhões, por meio da Aguassanta, controlada pela família de Rubens Ometto, controlador da Cosan.
  • Cosan: não fará aporte e terá a participação diluída, segundo o Times Brasil.
  • Desinvestimentos: a empresa informa vendas de ativos que já somam R$ 12 bilhões, conforme o Money Times.

Divisão em duas companhias

Pelo plano, a Raízen será separada em duas companhias abertas: Raízen Energia (etanol, açúcar e bioenergia) e Raízen S.A. (distribuição de combustíveis e lubrificantes Shell). A separação depende de condições suspensivas, e o Times Brasil não informa prazos. Samuel Aguirre deve presidir o conselho da Raízen S.A. e Lorival Nogueira Luz Jr. será seu CEO; Julio Cesar de Toledo Piza Neto deve presidir o conselho da Raízen Energia, comandada por Geovane Dilkin Consul.

Próximos passos

Os acionistas aprovaram o plano em assembleia na sexta-feira, 30 de outubro, e o conselho de administração deve deliberar sobre o aumento de capital na sexta-feira (6), segundo o Times Brasil. O texto não informa a diluição dos demais acionistas nem o número de ações a emitir.

Números do balanço

O Money Times informa prejuízo líquido de R$ 7,3 bilhões no quarto trimestre da safra 2025/26, dívida líquida de R$ 58,2 bilhões e impairments de R$ 22,5 bilhões no exercício. As causas apontadas são forte alavancagem, juros elevados, efeitos do clima sobre a cana e pressão nas margens. Em 30 de julho, as ações fecharam a R$ 0,26, o que dava valor de mercado de R$ 2,68 bilhões, com queda de cerca de 68% no ano, segundo o NeoFeed.

Análise

O caso ilustra a teoria austríaca do ciclo: juros baixos e crédito farto estimulam a expansão de projetos e de dívida; quando o custo do capital sobe, os investimentos mal calculados são liquidados. O que se vê é a dívida de dezenas de bilhões; o que não se vê, como lembra Bastiat, é o capital que poderia ter ido a outros usos mais produtivos.

O desfecho por acordo privado, com credores virando sócios e acionistas diluídos, é coerente com a responsabilidade individual: quem assume o risco paga por ele. Convém que assim seja também para grandes empresas, sem resgate com dinheiro do contribuinte, que não aparece nas informações apuradas. A segurança jurídica do processo, com homologação judicial e nenhuma contestação, é o ativo que permite essa solução.

A defesa de acionistas minoritários e de eventuais críticos do plano não constava nas reportagens consultadas até a publicação.