A Embraer anunciou nesta segunda-feira (2) um acordo com a Grécia para o fornecimento de até seis aviões militares KC-390 Millennium à Força Aérea do país. Segundo a reportagem do G1, o contrato prevê a compra inicial de três aeronaves, com opção de aquisição de outras três, e a primeira unidade deve ser entregue em 2027.
O que foi assinado
De acordo com a Embraer, a negociação foi feita por meio de um acordo governamental entre Grécia e Portugal. Portugal já opera o KC-390 e tem direitos de compra sobre aeronaves adicionais, que podem ser repassados a outros países europeus ou da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Com a escolha, a Grécia passa a ser o sétimo país europeu a optar pelo modelo brasileiro, na lista que inclui Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca e Suécia.
Fora da Europa, o KC-390 foi adquirido pelas forças aéreas do Brasil, da Coreia do Sul, do Uzbequistão, dos Emirados Árabes Unidos e da Colômbia.
Para que servirão os aviões
A expectativa é que a compra amplie a capacidade grega de transporte aéreo militar e de reabastecimento em voo e facilite operações conjuntas com aliados da Otan. A reportagem do site Air Data News informa que o C-390 deve substituir parte da frota de Lockheed Martin C-130 Hercules da Grécia, cuja disponibilidade diminuiu após décadas de operação.
O presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior, afirmou em comunicado que a escolha representa um reconhecimento da aeronave por países da Otan e reforça a presença do KC-390 no mercado internacional de defesa.
Como se chegou ao acordo
O caminho até a assinatura foi gradual e público:
- Maio de 2026: a Embraer e a Hellenic Aerospace Industry assinaram um memorando para desenvolver capacidade de manutenção do C-390 na Grécia, segundo veículos especializados.
- Julho de 2026: o Conselho de Segurança Nacional grego (Kysea) aprovou, em 23 de julho, a compra de três aeronaves, ao custo estimado de cerca de 600 milhões de euros pela imprensa grega, incluindo treinamento, peças e apoio logístico, conforme o Air Data News.
- Outubro de 2026: o governo português autorizou a contratação das três aeronaves para repasse à Grécia (veja quanto custa o KC-390 da Grécia e por que Portugal intermedia a compra).
Divergência entre as fontes
O G1 fala em "até seis" aviões, três firmes e três opcionais. Os veículos especializados consultados tratam do pedido firme de três aeronaves, com opção futura de mais três. As fontes também divergem sobre a lista de operadores europeus: o Air Data News inclui a Eslováquia, que não aparece na lista do G1.
Contexto para a Embraer
O anúncio veio poucos dias depois de a companhia divulgar a carteira de pedidos do terceiro trimestre de 2026, que atingiu o recorde de US$ 35,7 bilhões, alta de 14% sobre um ano antes. A carteira da área de Defesa & Segurança somou US$ 6,1 bilhões, segundo os resultados reportados. A Embraer informou que os números financeiros completos do trimestre saem em 10 de novembro.
Análise
Um contrato de exportação assinado por uma empresa que foi privatizada em 1994 e disputa mercado com fabricantes americanos e europeus é, no essencial, uma boa notícia: mostra que produto competitivo, e não protecionismo, abre portas. Para a Embraer e seus acionistas, é receita obtida por oferta voluntária de um comprador soberano.
Do lado grego, porém, o dinheiro é do contribuinte. Cerca de 600 milhões de euros em aviões de transporte são uma escolha de gasto que, na linguagem de Bastiat, tem o que se vê, a capacidade militar, e o que não se vê, aquilo que esse dinheiro deixaria de fazer se permanecesse no bolso de quem o produziu. Defesa é uma das poucas funções que a tradição liberal reconhece como legítimas do Estado, de proteção contra agressão externa, e por isso a discussão relevante é a de transparência e eficiência da compra, não a de sua existência.
O arranjo por meio de Portugal também merece atenção: contratos entre governos concentram decisões em poucas mãos e reduzem a competição aberta entre fornecedores. Cabe aos parlamentos e aos tribunais de contas dos dois países acompanhar custos, prazos e eventuais aditivos, que em programas militares costumam crescer.



