A Ryanair, maior companhia aérea da Europa em número de passageiros, divulgou nesta segunda-feira (2) o resultado do primeiro semestre do ano fiscal e disse que pode recorrer a congelamentos temporários de aumentos salariais, a menos tripulantes por voo e a mais inteligência artificial para enfrentar um combustível de aviação bem mais caro em 2027. As medidas estão em avaliação, não foram anunciadas como decisão.

O resultado do semestre

Segundo o The Journal (Irlanda), o lucro no semestre foi de 2,15 bilhões de euros, queda de 15% sobre o mesmo período de 2025. A empresa atribuiu o recuo à alta do querosene de aviação e a tarifas mais baixas. O número de passageiros subiu 6%, para 125,8 milhões, e a tarifa média caiu 4%.

Outro veículo, o BritBrief, que cita a City AM, fala em lucro antes de impostos de 2,4 bilhões de euros (queda de 16%) e receita de 5,5 bilhões de euros (alta de 4%). Os números diferem porque as reportagens usam medidas de lucro distintas (após e antes de impostos); a empresa não divulgou projeção de lucro para o ano completo, citando petróleo volátil e reservas de última hora.

O que o presidente-executivo disse

De acordo com o The Journal, Michael O'Leary afirmou que subir tarifas provavelmente não bastará para cobrir a conta maior de combustível. Ele disse que, se o conflito no Oriente Médio não tiver solução rápida, a empresa poderá congelar reajustes salariais, em acordos trabalhistas que estão vencendo, e que os congelamentos seriam temporários. Uma solução rápida, segundo a reportagem, reduziria a necessidade da medida.

Entre as outras alternativas estão reduzir a proporção de tripulantes por voo e usar IA em funções operacionais e de apoio administrativo. A companhia não informou quanto espera economizar com salários ou com IA.

Combustível e proteção de preço

Segundo o BritBrief, o preço do querosene de aviação dobrou no período. No ano fiscal em curso, cerca de 80% do combustível está protegido por contratos de preço fixo (hedge) a 67 por barril; para o ano seguinte, apenas 25% está protegido, a cerca de 95 por barril. As reportagens divergem sobre a moeda (euro ou dólar). Para o período de abril de 2027 a março de 2028, a empresa estima cerca de 2 bilhões de euros em custos adicionais, e O'Leary espera combustível caro por boa parte de 2027, desde o início da guerra com o Irã, em fevereiro. A companhia também prevê que as tarifas de curta distância subam de forma relevante no ano que vem, à medida que os contratos vencem.

Ainda segundo o BritBrief, a Ryanair tem 2,6 bilhões de euros em caixa bruto, frota de 620 aeronaves e opera em mais de 200 aeroportos.

E no Brasil

O mesmo movimento de custo aparece por aqui. Na véspera, a Petrobras reajustou em 7,2% o querosene de aviação vendido às distribuidoras, o que equivale a R$ 0,45 por litro (veja a matéria sobre o reajuste). Segundo a Associação Brasileira de Empresas Aéreas, citada pela Agência Brasil, o combustível passou de 30% para mais de 45% dos custos operacionais das aéreas brasileiras desde o início dos conflitos no Oriente Médio.

A Ryanair não havia detalhado, nas reportagens consultadas, a posição de sindicatos de pilotos e tripulantes sobre a possibilidade de congelamento.

Análise

O caso mostra como uma empresa privada reage a um choque de custos: negocia, corta despesas e repassa o que consegue ao consumidor. Hayek lembrava que o sistema de preços transmite informação que nenhum planejador possui; quando o querosene fica escasso e caro, o preço sinaliza que é preciso economizar, e é isso que a companhia faz ao rever tripulação, rotas e tarifas.

Há uma diferença importante entre essa decisão e a de um governo. A Ryanair responde ao próprio caixa e a acionistas; se errar, perde dinheiro. Governos, ao contrário, tendem a responder a choques de preço de combustível com subsídios e isenções pagos pelo contribuinte, que não somem com o problema, apenas o escondem. É o clássico "o que se vê e o que não se vê" de Bastiat: o preço menor na bomba se vê; o gasto público e a distorção que o financiam, não.

Quanto aos salários, acordos voluntários entre empresa e trabalhadores, inclusive moderação temporária em troca de manter empregos, são legítimos e preferíveis a imposições externas. O que não se justifica é transformar o custo do combustível em argumento para novas intervenções em preços ou novos impostos sobre passageiros, que só encarecem o voo.