A compra grega de aviões KC-390 Millennium, anunciada pela Embraer nesta segunda-feira (2), tem uma engenharia financeira pouco comum: quem contrata os aviões junto à fabricante é Portugal, que depois os fornece à Grécia. Os números abaixo vêm da autorização portuguesa, noticiada em outubro.

Os valores

Segundo o site Sociedade Militar, a Resolução do Conselho de Ministros nº 207/2026, publicada em 22 de outubro no Diário da República, autoriza uma despesa de 589.975.907,96 euros (cerca de R$ 3,3 bilhões), mais IVA português. O valor se divide assim:

  • Até 532,89 milhões de euros para os três KC-390 e o apoio logístico inicial;
  • Até 57,08 milhões de euros para equipamentos de guerra eletrônica, treinamento, apoio técnico, equipes na Grécia e administração do programa.

O Air Data News converte os dois valores para cerca de US$ 598 milhões e US$ 64,2 milhões, respectivamente. A imprensa grega, citada por esse mesmo veículo, estima o custo total em cerca de 600 milhões de euros, incluindo treinamento, peças e equipamentos de apoio.

Quem paga

A resolução portuguesa prevê que a operação seja financiada integralmente pela receita da venda das aeronaves à Grécia, ou seja, sem uso do orçamento de defesa de Portugal. Os pagamentos estão programados entre 2026 e 2031, mas esse cronograma não define as datas de entrega.

Por que Portugal

Portugal encomendou cinco KC-390 em 2019 e, em 2025, exerceu a opção por um sexto avião e garantiu direitos sobre até dez aeronaves adicionais para compradores europeus ou da Otan, por acordos entre governos. A Grécia deve ocupar três posições de produção antes reservadas a Portugal, o que ajuda a explicar o prazo de entrega a partir de 2027.

O que ainda faltava

Na data da autorização, o contrato bilateral entre Portugal e Grécia ainda não havia sido assinado, e o calendário de entregas dependia dele. Segundo o G1, o acordo foi fechado nesta segunda-feira, com compra inicial de três aeronaves, opção de outras três e primeira entrega em 2027. As reportagens consultadas não detalham o preço final do contrato assinado.

Contexto

A Grécia opera C-130 Hercules e C-27, e seu plano de modernização militar soma cerca de 28 bilhões de euros até 2036, segundo o Sociedade Militar. O ministro da Defesa, Nikos Dendias, confirmou publicamente o interesse no avião em maio de 2026.

Análise

O desenho do negócio tem um mérito: Portugal não usa recursos do orçamento para bancar a compra, porque o custo é repassado ao comprador. Isso reduz o risco para o contribuinte português, ainda que o risco de execução, com prazos e eventual reajuste de preços, fique na ponta da cadeia.

Para o contribuinte grego, a conta é outra. Mais de meio bilhão de euros em aviões, treinamento e guerra eletrônica é dinheiro retirado da economia privada por via tributária ou de dívida. Mises lembrava que o Estado não produz recursos; ele os realoca, e o cálculo econômico sem preços de mercado dificulta saber se o gasto é o mais eficiente. Por isso a transparência pesa mais em compras governo a governo, em que não há licitação aberta entre concorrentes.

Também vale observar a cláusula de manutenção local. Tornar a Grécia capaz de manter os aviões e os motores, como propõe o governo grego, pode reduzir custos no longo prazo, desde que a escolha seja justificada por números e não por subsídios a empresas escolhidas.