Depois do reajuste de 17,5% no GLP vendido pela Acelen às distribuidoras baianas, o que mais pesa na conta do consumidor é uma pergunta que se repete a cada aumento: por que o botijão na Bahia custa mais do que em outros estados? Este texto olha para os números por tonelada, para a conta por botijão na saída da refinaria e para a diferença de política de preços em relação à Petrobras. A notícia do reajuste em si está em outra matéria do Tendência News.

Dois reajustes em dois meses

A Acelen, que opera a Refinaria de Mataripe (antiga Refinaria Landulpho Alves) desde dezembro de 2021, divulgou nos últimos meses a seguinte evolução do GLP vendido às distribuidoras, segundo as reportagens consultadas:

  • Setembro: R$ 3.643,40 por tonelada (valor anterior ao reajuste de outubro, informado pelo ChicoSabeTudo)
  • Outubro: R$ 3.971,60 por tonelada, alta de cerca de 9%
  • Novembro: R$ 4.664,90 por tonelada, alta de 17,5%, conforme nota da empresa citada pelo g1

Somando os dois movimentos, o GLP na saída da refinaria está cerca de 28% mais caro do que estava antes de outubro (cálculo do Tendência News a partir dos valores acima: R$ 4.664,90 sobre R$ 3.643,40). O percentual é maior que o de qualquer reajuste isolado do ano, e o sindicato dos revendedores já classificou o de novembro como o maior desde 2021.

A conta por botijão, na refinaria

Um botijão de 13 kg corresponde a 0,013 tonelada. Aplicando esse fator ao preço por tonelada, o custo do produto na saída da refinaria fica assim (cálculo do Tendência News, sem tributos, margem de distribuição, frete ou revenda):

  • Antes de outubro: cerca de R$ 47,37
  • Após o reajuste de outubro: cerca de R$ 51,63
  • Após o reajuste de novembro: cerca de R$ 60,64

O aumento de novembro, isoladamente, equivale a cerca de R$ 9 por botijão na refinaria. Em outubro, o ChicoSabeTudo já havia estimado o impacto na saída da refinaria em cerca de R$ 4,27 por botijão. A estimativa do Sinrevgas de R$ 12 a R$ 15 no preço final é maior que os R$ 9 da refinaria porque inclui o que se soma ao longo da cadeia: distribuição, frete, margens e tributos que incidem sobre o valor.

Quanto custa o botijão ao consumidor

As reportagens consultadas não trazem o preço médio atual do botijão na Bahia depois do reajuste de novembro. Há referências anteriores:

  • Em abril, o Interior da Bahia informou que o botijão variava de R$ 125 a R$ 155 em Salvador antes do reajuste de 15,3%, com estimativa de chegar a R$ 165.
  • Em outubro, o iBahia, citando a TV Bahia, apontou que o preço em Salvador podia chegar a R$ 170. No mesmo mês, uma apuração do ChicoSabeTudo com base em dados da ANP indicava média de R$ 111,83 em Paulo Afonso, interior do estado, com mínima de R$ 110 e máxima de R$ 113, antes de o reajuste chegar às revendas.

A diferença entre Salvador e o interior mostra que não existe um único preço baiano. O valor final depende de frete, logística, concorrência local e da margem de cada revendedor, como lembra o próprio sindicato. Quem quiser conferir o preço da sua cidade pode consultar o levantamento semanal de preços de GLP da ANP.

Por que a Bahia tem preço diferente

A Acelen informa que sua política de preços acompanha critérios de mercado: cotação internacional do petróleo, variação cambial e custos de frete, com revisões mensais para cima ou para baixo. Isso explica por que houve quedas em julho e agosto e altas em abril, junho, outubro e novembro.

Em 2023, a Petrobras passou a adotar preços para o GLP inferiores aos praticados por concorrentes, segundo reportagem do Correio. A mesma matéria, de fevereiro de 2025 pelos dados citados, comparava o botijão de 13 kg vendido a distribuidores: R$ 60,85 na Acelen, após o reajuste daquele mês, contra R$ 34,70 na Petrobras, diferença de cerca de 75%. Na ocasião, o economista Eric Gil, do Ibeps, atribuiu a distância à ausência de concorrência no estado, já que a Acelen é a única grande produtora local. A Acelen respondeu que segue o mercado internacional. Esses números de 2025 não são atuais e servem apenas para mostrar a natureza da diferença; as reportagens consultadas agora não trazem uma comparação atualizada com a Petrobras.

Do outro lado, Robério Souza, presidente do Sinrevgas, afirmou na ocasião que a procura havia caído e que alguns revendedores deixaram a atividade ou não conseguiam repassar os aumentos ao consumidor. Em maio deste ano, segundo o g1, parte da alta foi absorvida pelos revendedores sem repasse integral.

Como ficam os revendedores e o consumidor

Os reajustes mensais criam um problema prático para quem vende. O revendedor compra a preço de uma tabela e vende a preços que mudam de cidade para cidade; quando a alta é grande, ou ele absorve parte, reduzindo a margem, ou repassa e perde clientes. Para a família, o botijão dura em média semanas, e uma variação de R$ 12 a R$ 15 pesa mais em lares de baixa renda. O programa Gás do Povo, que concede vale para retirada gratuita de um botijão de 13 kg a famílias do Cadastro Único, tem nova janela prevista para 10 de novembro, segundo o Aratu On.

Análise

A comparação entre Acelen e Petrobras costuma ser lida como prova de que o mercado privado explora o consumidor. Os fatos apontam para uma explicação mais incômoda: o problema baiano é a falta de concorrência, não o excesso de mercado. Quando a Acelen assumiu Mataripe, o estado passou de um monopólio estatal para um monopólio regional privado, e a lógica econômica do monopólio não depende de quem é o dono. Hayek lembrava que a concorrência é um processo de descoberta: sem rivais que ofereçam GLP mais barato, o preço deixa de revelar o que o produto realmente custa e passa a refletir o poder de quem vende.

O caminho consistente com a liberdade econômica é abrir o mercado: facilitar importação e terminais, reduzir barreiras regulatórias e logísticas e permitir que mais ofertantes disputem o consumidor baiano. A saída oposta, de forçar a Petrobras a vender abaixo do custo ou de tabelar preços, é o que Bastiat chamaria de "o que se vê": o botijão mais barato hoje. O que não se vê é quem paga a diferença: acionistas, incluindo o Tesouro e pequenos investidores, e contribuintes, além do investimento que deixa de ocorrer quando o preço não sinaliza escassez. Mises mostrou que sem preços livres o cálculo econômico se perde, e isso vale para a estatal que subsidia o consumo tanto quanto para o monopólio que o explora.

Os mesmos critérios valem para o governo federal. O vale-gás é um paliativo defensável para quem não tem como pagar, mas custa dinheiro de contribuintes e não resolve a causa do preço alto. Parte do valor do botijão é tributo, e reduzir essa carga alivia o bolso de todos sem distorcer o preço na refinaria.