As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, as "midterms", acontecem nesta terça-feira (3). A Presidência não está em jogo, mas o resultado pode mudar o espaço de Donald Trump para aprovar medidas sobre gastos, impostos e comércio, e analistas ouvidos pela imprensa brasileira apontam dois canais pelos quais isso chega ao Brasil: os juros dos títulos do Tesouro americano e a cotação do dólar.
O que está em disputa
Todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes são renovadas, com mandatos de dois anos. No Senado, 35 das 100 vagas estão em jogo: 33 do calendário regular e duas eleições especiais, em Ohio e na Flórida, segundo o InvestNews. Hoje a Câmara tem 218 republicanos, 214 democratas, um independente alinhado aos republicanos e duas vagas; o Senado tem 53 republicanos, 45 democratas e dois independentes que votam com os democratas. A maioria na Câmara exige 218 cadeiras, e os democratas precisam de um ganho líquido de quatro cadeiras no Senado para virar a Casa.
O que dizem as projeções
Segundo o G1, que reuniu projeções do BTG Pactual, o modelo estatístico do The Economist indica 239 cadeiras democratas contra 196 republicanas na Câmara, com 96% de probabilidade de maioria democrata. O mercado de previsões Polymarket atribuía 92% de chance ao partido na Câmara. No Senado, a disputa é mais apertada: o cenário-base do BTG é de 51 cadeiras democratas e 49 republicanas, com probabilidade de maioria democrata entre 65% (Polymarket) e 72% (modelo do banco).
Pesquisa Reuters/Ipsos concluída em 26 de outubro, citada pelo InvestNews, mostra 47% de preferência pelos democratas e 36% pelos republicanos para o Congresso entre eleitores registrados, e aprovação de 32% para Trump. A própria matéria ressalta que esse tipo de número não prevê diretamente a distribuição de cadeiras. Historicamente, o partido do presidente perdeu cadeiras na Câmara em 18 das 20 midterms entre 1946 e 2022.
Projeções e mercados de previsão não são resultado: a apuração é feita estado a estado, e os números da noite podem ser provisórios.
Por que isso mexe com dólar e juros
A cadeia descrita pelo G1 funciona assim: decisões do Congresso sobre gastos e impostos moldam a expectativa dos investidores sobre as contas públicas americanas. Se a perspectiva é de despesas crescendo mais que a arrecadação, os juros dos títulos do Tesouro podem subir. Como esses títulos são referência global, rendimentos maiores atraem capital para os EUA e podem tirar recursos de emergentes como o Brasil. Com menos dólares entrando, a moeda americana tende a subir frente ao real, e os juros futuros brasileiros também podem subir, o que encarece o crédito para empresas e consumidores e influencia as apostas sobre a Selic.
Marcos Praça, da ZERO Markets Brasil, avalia que uma vitória republicana nas duas Casas daria a Trump mais espaço para cortes de impostos, desregulamentação e política comercial mais dura. Se isso ampliar o déficit, ele vê pressão sobre inflação e juros de longo prazo nos EUA e, no Brasil, dólar mais alto, juros futuros em alta e bolsa mais difícil para empresas endividadas. Já uma vitória democrata reduziria o espaço para novos estímulos, aliviaria os juros americanos e poderia favorecer a entrada de recursos no Brasil. Praça lembra que o efeito dependeria também do ambiente político americano, já que disputas orçamentárias podem gerar insegurança.
Há leituras que não apontam na mesma direção. A Saxo Bank, em guia de setembro, descreve que uma Câmara democrata reduziria a chance de grandes pacotes novos de impostos ou gastos e poderia aliviar a pressão sobre os juros longos, mas aumentaria a dificuldade de negociar o orçamento e o risco de paralisação do governo. O Brown Brothers Harriman (BBH), em texto de 1º de outubro, argumenta que, se juros mais altos refletirem risco fiscal e não crescimento, o dólar poderia até enfraquecer. O banco compara com 2018-2019 (Congresso dividido: S&P 500 +28,9% e dólar -0,8%) e 2006-2007 (democratas viram o Congresso: S&P 500 +3,5% e dólar -7,6%). São analogias históricas, não projeções.
O InvestNews também alerta que uma vitória democrata não provocaria, automaticamente, mudanças no dólar, nos juros ou nas bolsas.
O dólar no Brasil agora
O G1 informa que, depois das oscilações do período eleitoral brasileiro, o dólar voltou à casa dos R$ 5,40. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, associa o movimento a um fortalecimento global do dólar, puxado por expectativas de alta de juros nos EUA. Ele afirma que, após a vitória de Lula no segundo turno e a frustração de apostas do mercado, a moeda voltou a subir. O pano de fundo americano está no nosso artigo anterior sobre a economia de Trump antes das eleições, com inflação em 12 meses de 3,7% em setembro.
Tarifas: o Congresso não é o único freio
Uma mudança no Congresso não encerraria automaticamente as tarifas. Segundo o G1, o presidente pode recorrer à Seção 232 (segurança nacional) e à Seção 301 (práticas desleais), instrumentos já usados contra produtos brasileiros, como o aço. Em 20 de fevereiro, a Suprema Corte derrubou as tarifas baseadas na lei de poderes econômicos de emergência (IEEPA), mas a decisão não alcançou as Seções 232 e 301. Segundo dados do USTR citados pelo InvestNews, o comércio bilateral de bens e serviços entre os dois países somou cerca de US$ 135,7 bilhões em 2025.
O que vem a seguir
Os eleitos tomam posse em 3 de janeiro de 2027, quando começa a 120ª legislatura. Antes disso, em 11 de dezembro, expira o orçamento temporário do governo federal, o primeiro teste de negociação com o Congresso. Mesmo com a Câmara nas mãos da oposição, Trump mantém o poder de veto, e a derrubada exige dois terços das duas Casas.
Análise
O debate sobre o que as midterms farão com o dólar e os juros brasileiros revela, antes de tudo, uma dependência: o preço do crédito e da moeda no Brasil oscila conforme o déficit de outro país. A explicação austríaca é direta. Para Mises, a expansão de gastos financiada por dívida e por crédito barato distorce os preços de juros e induz decisões de investimento que não se sustentam. Quando investidores esperam que Washington gaste mais do que arrecada, o juro de longo prazo sobe, e o mundo todo paga a conta, inclusive quem não votou.
O ponto vale para qualquer lado. Corte de impostos sem corte de gastos é adiar a cobrança; pacote de estímulo é mais gasto público; guerra tarifária é imposto sobre o consumidor, seja o americano que paga mais caro pelo aço, seja o produtor brasileiro que perde mercado. O que se vê, na lição de Bastiat, é o ganho anunciado para um setor; o que não se vê é o custo diluído sobre todos. Um Congresso dividido que trave novos gastos pode reduzir parte do risco fiscal, mas a mesma divisão traz o risco de paralisação do governo, e nenhuma dessas hipóteses substitui disciplina orçamentária.
Hayek lembrava que nenhum planejador reúne o conhecimento disperso que os preços transmitem. Os modelos citados pelos analistas, com probabilidades de 65% a 96%, mostram o limite dessa pretensão: BTG, Saxo e BBH apontam efeitos em direções diferentes para o mesmo resultado eleitoral. A previsão honesta é que ninguém sabe.
Para o leitor brasileiro, a conclusão prática é que a proteção contra a política americana não está em torcer por um resultado em Washington, e sim em reduzir a própria vulnerabilidade. O BBH registra que a dívida pública brasileira subiu de 71,7% do PIB em janeiro de 2023 para 82,5% em julho de 2026. Quanto maior a dívida, maior o prêmio de risco exigido em qualquer choque externo. Responsabilidade fiscal em Brasília, com gasto menor e sem aumento de carga tributária, é a única defesa que depende de quem a escolhe.



