Na terça-feira (3), os americanos vão às urnas nas eleições de meio de mandato, e a economia é o assunto central da campanha. O presidente Donald Trump diz que o país vive um crescimento sem precedentes, mas os indicadores divulgados nas últimas semanas formam um quadro misto: o PIB acelerou, a inflação voltou a subir e a criação de empregos perdeu fôlego.
Inflação: 3,7% em 12 meses
O índice de preços ao consumidor (CPI) de setembro, divulgado em 14 de outubro pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), subiu 3,7% em 12 meses, contra 3,4% em agosto. Na comparação mensal, a alta foi de 0,6%, com ajuste sazonal, ante 0,4% em agosto.
O núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, avançou 0,3% no mês e 2,6% em 12 meses. A pressão vem da energia: a gasolina subiu 9,1% em setembro e 34,2% em 12 meses. Os alimentos ficaram estáveis no mês e subiram 2,5% em 12 meses.
Segundo o Valor Econômico, que reproduz levantamento da Associated Press, o CPI estava em 3% em janeiro de 2025, quando Trump voltou à Casa Branca, desacelerou até abril e voltou a subir depois do anúncio do pacote de tarifas comerciais. A guerra contra o Irã, iniciada no fim de fevereiro de 2026, intensificou as pressões. Em um evento em Ohio, no início de outubro, Trump disse que o país "praticamente não tem inflação"; os dados do Departamento do Trabalho não sustentam a frase. O índice, por outro lado, segue abaixo dos picos do governo de Joe Biden. O próximo CPI, o de outubro, sai em 10 de novembro.
PIB: 3,4% no terceiro trimestre
Em 29 de outubro, o Departamento de Comércio divulgou a estimativa preliminar do PIB do terceiro trimestre: alta de 3,4% em taxa anualizada, acima dos 2,2% do segundo trimestre. O resultado superou a projeção de 3,1% citada pelo Wall Street Journal, segundo o site Hot Air, de orientação conservadora, que registra ainda alta de 3,8% no consumo pessoal real e de 19,4% no investimento privado bruto. As exportações recuaram.
A leitura de longo prazo é menos favorável ao presidente. A AP, citada pelo Valor, afirma que o PIB avança a pouco mais de 2% ao ano sob Trump, ritmo inferior ao do governo Biden. Os números não se contradizem: um é o trimestre mais recente, o outro, a média do mandato. Economistas ouvidos pela AP temem que as famílias estejam recorrendo a economias para acompanhar a alta dos preços.
Emprego: desemprego baixo, poucas vagas
A taxa de desemprego foi de 4,2% em setembro, com 7,1 milhões de desempregados, e oscilou entre 4,1% e 4,3% desde março, segundo o BLS. A criação de vagas, porém, foi de apenas 29 mil no mês, número que o BLS descreve como pouco alterado. Julho foi revisado de 21 mil para saldo negativo de 10 mil, e agosto, de 162 mil para 133 mil.
Pelos cálculos da AP, o segundo mandato de Trump registra média de quase 39 mil vagas por mês, contra mais de 121 mil no ano anterior ao retorno do republicano. A agência atribui parte da desaceleração à política migratória mais dura, que reduziu o número de pessoas em busca de trabalho, e nota que o desemprego entre os nascidos nos EUA ficou praticamente estável. O relatório de outubro está previsto para 6 de novembro.
Juros, bolsa e desigualdade
O rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos está acima de 5%, após tocar o nível mais alto desde 2002, o que encarece financiamentos de casas e carros e o custo da dívida pública. O S&P 500 acumulava alta de cerca de 12% em 2026 até quinta-feira (29), depois de 16,4% em 2025 e 23,3% em 2024, ainda com Biden no cargo.
Dados do Federal Reserve citados pela AP indicam que o patrimônio dos 0,1% mais ricos cresceu US$ 5,5 trilhões em 18 meses, contra US$ 380 bilhões para a metade mais pobre das famílias. A arrecadação federal com tributos corporativos caiu 16% em 2025, segundo o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO). Pesquisa da Universidade de Michigan mostra confiança do consumidor abaixo da registrada na pandemia de 2020 e na crise de 2008, embora o país não esteja em recessão.
O que vem a seguir
Depois das urnas, os próximos testes são o relatório de emprego de outubro (6 de novembro) e o CPI de outubro (10 de novembro), que mostrarão se a inflação segue em alta e se o mercado de trabalho continua desacelerando.
Análise
Os números pedem uma leitura que não caia nem na propaganda nem no pessimismo de campanha. Uma inflação de 3,7%, com gasolina 34,2% mais cara em 12 meses, é perda real de poder de compra, e nenhuma frase de comício a elimina. Para Ludwig von Mises, a inflação não cai do céu: nasce da expansão do crédito e da moeda, e quem vive de salário ou poupança paga a conta antes de todos. Quando o Tesouro rende mais de 5% porque o governo precisa financiar um déficit crescente, o mercado cobra o preço dessa expansão.
As tarifas anunciadas em abril de 2025 merecem o mesmo escrutínio. Frédéric Bastiat ensinava a olhar "o que se vê e o que não se vê": o que se vê é a indústria protegida; o que não se vê é o consumidor que paga mais e o produtor que perde mercado exterior. O mesmo critério vale para a guerra, que encarece a energia, e para qualquer pacote de gasto, de quem quer que governe.
Há também um alerta para os dois lados da disputa. Um PIB de 3,4% em um trimestre não prova uma política acertada, assim como a média de 39 mil vagas não prova o contrário. Hayek lembrava que ninguém no governo reúne o conhecimento disperso entre milhões de agentes; indicadores agregados são úteis, mas não substituem o julgamento de quem produz, investe e consome. A saída consistente com a liberdade individual é a mesma para republicanos e democratas: menos gasto, menos imposto, moeda estável e regras previsíveis, sem intervenção em preços nem mercados escolhidos pelo poder político.



