A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) afirma que as vendas de alimentos essenciais cresceram 6,5% desde o fim de setembro, na comparação com o mesmo período de 2025, e associa a alta à proibição das casas de apostas. O setor de apostas contesta a relação e aponta outros fatores. As reportagens consultadas concordam em um ponto: a causa do aumento ainda não está comprovada.
O que a Abras divulgou
Segundo o Correio Braziliense, a associação apresentou os dados na feira Supervendas, em Aracaju. De acordo com a entidade, na semana de 5 a 11 de outubro as vendas de itens como arroz, óleo, macarrão e café subiram 6,5%, e na semana de 12 a 17 de outubro, 6,3%, sempre sobre as mesmas semanas de 2025. O recorte regional informado foi:
- Região Sul e parte do Sudeste (Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro): alta de 10,6%;
- Nordeste: 6,5%;
- interior paulista: 5,6%;
- Região Metropolitana do Rio de Janeiro: 4%;
- Centro-Oeste: 3,6%;
- Grande São Paulo: 1,2%.
O presidente da Abras, João Galassi, associou o movimento à queda nas transações com Pix, que teria recuado cerca de 10% logo após a proibição e depois 7%. Para ele, parte do dinheiro antes destinado às apostas passou a ir para compras de comida. O próprio Galassi admitiu, segundo o jornal, que ainda não é possível afirmar a causa real do crescimento.
A medida provisória 1.394/2026, sancionada, conforme o Correio, em 25 de setembro, proibiu as bets, e o vice-presidente Geraldo Alckmin e o senador Humberto Costa (PT-PE) compartilharam os números nas redes como evidência a favor da decisão do governo.
A contestação do setor de apostas
Em nota, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) e a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) afirmaram que os números não comprovam relação direta. Os argumentos citados pelo Correio Braziliense:
- o varejo alimentar já crescia antes da MP, com avanço nominal de 7,9% entre 14 e 20 de setembro e de 7,4% entre 5 e 11 de outubro, ante 2025;
- melhora do emprego e da renda, queda de preços de alimentos e reajuste de 15% do Bolsa Família podem ter contribuído;
- o IPCA-15 de outubro mostrou queda em itens como cenoura, frutas e café.
O IBGE registra que o IPCA-15 desacelerou de 0,48% em setembro para 0,18% em outubro, e que alimentos e bebidas recuaram 0,02%. A ANJL também considerou "suspeita" a divulgação do levantamento perto da audiência no STF, segundo a Agenda do Poder, e diz que milhões continuam apostando em sites ilegais.
O que dizem as checagens
O Ulti cita checagem do BNLData segundo a qual a metodologia da Abras não foi publicada e o período coincide com a devolução de saldos aos apostadores. Pelo balanço oficial reproduzido na mesma matéria, a devolução somou R$ 159 milhões para 22,5 milhões de apostadores, com cerca de 90% das contas abaixo de R$ 1. Ou seja, o valor devolvido, em média, é muito pequeno diante da escala do varejo alimentar.
Um estudo do Made-USP, também citado pelo Ulti, estima que as bets retiraram de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, entre 0,9% e 1,1% do PIB, com efeito maior sobre famílias de menor renda. O setor contesta as premissas do estudo.
Por que isso importa para a audiência no STF
A Abras foi incluída por Fux entre os participantes da audiência pública de terça-feira (3), onde o argumento do consumo deve ser apresentado ao lado de pedidos de clubes, do governo e do setor de apostas. Segundo as reportagens, a MP ainda precisa ser analisada por deputados e senadores e enfrenta resistência no Congresso.
Análise
O raciocínio "o dinheiro das bets voltou para a mesa" é exatamente o tipo de argumento que Frédéric Bastiat pediria para examinar com cuidado: o que se vê é a alta nas vendas de arroz e café; o que não se vê é o conjunto de gastos que deixou de ocorrer em outras áreas e o dinheiro que migrou para apostas clandestinas. Uma série curta de duas semanas, sem metodologia divulgada, não separa o efeito da proibição do efeito do emprego, da queda de preços e do reajuste do Bolsa Família, fatores que o próprio IBJR lista. Quando o varejo já crescia 7,9% antes da MP, atribuir à medida um avanço de 6,5% exige mais do que uma associação de empresas interessadas em divulgar o número.
Vale também a ressalva simétrica: o IBJR e a ANJL são partes na disputa, e a nota que reduz o efeito da MP serve a seus interesses. Dado oficial, comparável e com metodologia aberta é o que falta nos dois lados. Governos que celebram um número nas redes antes de ele ser auditado fazem política com estatística, e isso vale para qualquer partido.
Mesmo que parte da alta se confirme, o argumento não resolve a questão de princípio. Ludwig von Mises insistia que o consumidor é o soberano do mercado; cabe a cada família decidir se gasta em comida, lazer ou em apostas, e o resultado dessas escolhas é informação para o mercado. Um Estado que decide por decreto para onde a renda do cidadão deve ir, ainda que com boa intenção, substitui a escolha individual por um planejamento que Hayek mostrou ser incapaz de reunir o conhecimento disperso das famílias. A saída para o dano real das apostas compulsivas é tratamento, informação e responsabilidade individual, não a proibição ampla.



