Mesmo com PIB em alta no terceiro trimestre, pesquisas indicam que o eleitor americano segue insatisfeito com a economia na reta final das eleições de meio de mandato, marcadas para terça-feira (3). Os dados oficiais ajudam a entender por quê: os itens que mais pesam no orçamento doméstico subiram acima da média.
Combustível: o item que mais subiu
No CPI de setembro, divulgado pelo Bureau of Labor Statistics, a gasolina subiu 9,1% em um mês (com ajuste sazonal) e 34,2% em 12 meses. O índice geral subiu 3,7% em 12 meses; o núcleo, que exclui alimentos e energia, 2,6%. Ou seja, a inflação geral está acima do núcleo por causa da energia. O Valor Econômico, com base em levantamento da AP, relaciona a escalada à guerra contra o Irã, iniciada no fim de fevereiro.
Já a comida no supermercado ficou praticamente estável: alimentação em casa caiu 0,1% em setembro e subiu 1,8% em 12 meses. A percepção de preços altos, segundo a AP, também reflete o acumulado dos últimos anos.
Crédito mais caro
O rendimento do título de dez anos do Tesouro está acima de 5%, após atingir o maior nível desde 2002, de acordo com o Valor. Esse patamar influencia financiamentos imobiliários e de veículos, e eleva o custo para o governo financiar e refinanciar a dívida. O jornal aponta a combinação de dívida pública crescente, inflação persistente e energia cara como causa.
Renda e patrimônio
Dados do Federal Reserve citados no levantamento indicam que o patrimônio do 0,1% mais rico subiu US$ 5,5 trilhões em 18 meses, ante US$ 380 bilhões para a metade mais pobre, o que equivale a cerca de US$ 5.600 por família da metade inferior, em média. Para os 0,1% do topo, o ganho médio foi de US$ 40,8 milhões por família. Parte dessa diferença vem da valorização das ações de tecnologia, que sustentam o S&P 500 (alta de cerca de 12% em 2026 até 29 de outubro).
Consumo ainda forte
O Hot Air, site de orientação conservadora, destaca que o consumo pessoal real subiu 3,8% no terceiro trimestre e o investimento privado, 19,4%, segundo a estimativa preliminar do PIB divulgada em 29 de outubro. A AP pondera que economistas temem que parte desse consumo esteja sendo financiado por economias acumuladas, e não por renda.
O que observar
O relatório de emprego de outubro sai em 6 de novembro, e o CPI do mês em 10 de novembro. Um novo salto da gasolina ou do rendimento dos títulos manteria a pressão sobre as famílias. Veja o panorama completo em Economia de Trump antes das eleições.
Análise
O que o eleitor sente na bomba de gasolina e na prestação da casa é a resposta mais honesta a qualquer discurso. Uma alta de 34,2% no combustível em 12 meses é tributo invisível cobrado de quem dirige para trabalhar, e atinge mais quem tem menos. Bastiat diria que o político vê a estatística agregada; o cidadão vê o que não aparece nela.
Os juros acima de 5% ilustram a teoria austríaca do crédito: quando o Estado absorve poupança para financiar déficits, o preço do dinheiro sobe e o investimento privado concorre com o gasto público. Rothbard defendia que o remédio não está em novos programas, mas em cortar gasto e deixar a poupança real orientar o crédito. Isso vale para republicanos e democratas.
Sobre a desigualdade patrimonial, convém distinguir. Se a valorização das ações vem de empresas que servem consumidores voluntariamente, ela é consequência de trocas livres. Se vem de moeda abundante que infla ativos antes de chegar aos preços, Mises e Hayek reconheceriam o efeito Cantillon: quem está mais perto da criação de dinheiro ganha primeiro. O diagnóstico exige separar mercado livre de privilégio monetário e fiscal. Em ambos os casos, a resposta consistente com a propriedade privada e o Estado de Direito é moeda sólida, impostos baixos e regras iguais para todos.



