O músico e escritor Tony Bellotto, 66 anos, guitarrista dos Titãs, afirma conviver de forma pacífica com o câncer de pâncreas diagnosticado em março de 2025. Em entrevista à Folha de S.Paulo por mensagens de áudio, publicada nesta quinta-feira (5), ele disse que a doença o fez viver com mais intensidade: "Cada dia que eu acordo é mais especial do que era antes do diagnóstico".

Aula magna para 4 mil médicos

Na sexta-feira (6), Bellotto dará uma aula magna para cerca de 4.000 médicos sobre vida, ciência, arte e a dimensão humana do cuidado no Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica, promovido pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc) de quinta (5) a sábado (7), no Rio de Janeiro.

"Não tenho medo da morte"

Segundo ele, a consciência da morte acompanha todo ser humano e a doença apenas a tornou mais concreta. Bellotto diz não ter medo da morte, nem antes nem depois do diagnóstico. O que o angustia é o sofrimento que pode vir no fim e a dor que sua morte causaria a quem ele ama; por isso, faz questão de mostrar que está bem. Resume a postura com um verso do poeta Paulo Leminski: "Não discuto com o destino, o que pintar eu assino". Para ele, a música funciona como remédio: "Enquanto estou tocando, a doença não existe".

Estigma e esperança

Aos pacientes que acabam de receber um diagnóstico, Bellotto aconselha calma e pragmatismo: "É preciso eliminar o drama". Para ele, o que mais atrapalha quem tem câncer é o estigma. Cita o hábito de autores de dar um câncer a personagens que querem condenar e espera que a doença perca o peso, como ocorreu com a tuberculose quando se tornou tratável. Quando é abordado na rua com olhar preocupado, responde: "Estou igual a você, estou vivo".

Sobre a atuação dos médicos, afirma que "os bons médicos te deixam com a esperança" e que a atenção atual aos cuidados paliativos faz parte do esforço de dizer ao paciente que há algo a fazer.

Remédios e desigualdade no acesso

Bellotto citou avanços no tratamento do câncer de pâncreas, como o daraxonrasib, que, segundo ele, foi aprovado pela FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, e aguarda liberação da Anvisa. Disse não estar usando o remédio, mas defendeu que seja aprovado logo e acessível a todos: para ele, os preços por enquanto são proibitivos e é inaceitável que um medicamento tão importante fique fora do alcance da maior parte da população. As informações sobre a aprovação do fármaco são do entrevistado e não foram confirmadas de forma independente por este texto.

Contexto

O câncer de pâncreas costuma ser diagnosticado em fase avançada, o que torna mais raros os casos descobertos quando a cirurgia ainda é possível. Bellotto já havia falado publicamente sobre o assunto, como em entrevista ao programa Roda Viva, em que disse não "lutar" contra a doença, mas negociar uma convivência pacífica.