Clientes e aposentados do Ueno Bank, maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, protestaram em Assunção e em Mburuvicha Róga depois que o Banco Central do Paraguai (BCP) assumiu o controle da instituição. Segundo o jornal ABC Color, citado pelo Estadão, houve confrontos com a polícia e pedidos de prisão do presidente Santiago Peña.

O que o Banco Central decidiu

O conselho do BCP votou por unanimidade, na noite de segunda-feira (2), colocar o Ueno em processo de resolução e entregar sua gestão a funcionários encarregados de avaliar as finanças e proteger os ativos. Em comunicado, o BCP disse que o objetivo é "proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro". O banco tem cerca de 3 milhões de clientes, quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios. A intervenção deixou incertas as economias de milhões de clientes e centenas de milhões de dólares em fundos públicos, de acordo com o Estadão. Na terça-feira (3), formaram-se longas filas em agências na tentativa de sacar dinheiro.

Os protestos

Manifestantes se reuniram diante do Panteão Nacional dos Heróis, e parte do grupo avançou em direção ao Congresso, onde foi contida pela Polícia Nacional. Outros se concentraram em frente à residência oficial do presidente. Com gritos de "devolvam tudo" e faixas dizendo que "o Estado deve garantir 100% dos recursos", exigiram a devolução do dinheiro do Instituto de Previdência Social (IPS) e de fundos de aposentadoria retidos no banco.

O pano de fundo: meses de questionamentos

A crise vinha sendo anunciada. Em reportagem de 22 de outubro, a Reuters relatou que o BCP estava sob pressão por causa do banco, que administrava de US$ 800 milhões a US$ 850 milhões em recursos públicos, passara por uma queda forte de seus títulos no exterior e teve a perspectiva rebaixada para negativa pela agência Fitch. O BCP havia aberto uma investigação administrativa preliminar, e o Ueno afirmou que isso não era conclusão de irregularidade e que cooperaria.

A relação com o poder político é um dos pontos de tensão. O presidente do BCP, Carlos Carvallo, trabalhou no Ueno e o dirigiu até agosto de 2023; o BCP diz que ele se declarou impedido em todas as decisões sobre o banco e que não há conflito de interesses. A Reuters também informou que Peña foi sócio do grupo dono do banco até março de 2025; o Ueno afirma que o presidente nunca teve vínculo com a instituição como acionista ou investidor. Senadores governistas e da oposição pediram a troca da cúpula do BCP; o governista Gustavo Leite disse que "o pessoal do Banco Central perdeu credibilidade". A Associação de Bancos, que reúne instituições como o Itaú, considerou "incompleta" a resposta do BCP ao Senado.

O que ainda não está claro

Este texto se baseia no relato do Estadão e do ABC Color sobre a intervenção; o Tendência News não localizou, até a publicação, comunicado oficial do BCP em outra fonte. Não há detalhes públicos sobre prazos de devolução dos depósitos nem sobre o tamanho do buraco no balanço.

Análise

O caso reabre uma discussão clássica: quando o Estado garante depósitos sem limite, quem arca com o custo é o contribuinte. A cobrança dos manifestantes por "100% de garantia" é humanamente compreensível, mas transfere o prejuízo de uma gestão privada para toda a sociedade e estimula o próximo banco a assumir riscos. O ponto mais grave, porém, é institucional: um regulador chefiado por ex-dirigente do banco fiscalizado, e um banco com ligações políticas apontadas pela imprensa, é o tipo de arranjo que corrói a confiança em qualquer sistema financeiro. Supervisão independente, transparência sobre fundos públicos aplicados em um único banco e regras claras de resolução são mais importantes do que qualquer promessa de resgate improvisada.