Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) relataram que fibras extraídas da pitanga e do cambuci, duas frutas nativas brasileiras, reduziram a viabilidade de células de câncer colorretal (de intestino) em testes de laboratório. Os resultados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Alimentos Funcionais (INCT FoRC/USP), e os próprios cientistas ressaltam que se trata de um achado inicial, feito apenas com células cultivadas.

O que o estudo encontrou

A pesquisa é coordenada pelo professor João Paulo Fabi, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP. A equipe analisou as fibras solúveis presentes na polpa das duas frutas. No cambuci, elas são compostas principalmente por pectinas, substâncias que dão consistência aos frutos e que também podem interagir com as bactérias do intestino. Na pitanga, há uma combinação de pectinas e hemiceluloses, outro tipo de fibra vegetal.

Para isolar o efeito das fibras, os pesquisadores retiraram outros compostos das amostras. Em seguida, expuseram as células a três concentrações (0,1%, 0,25% e 0,5%) e avaliaram os resultados após 24, 48 e 72 horas.

  • Pitanga: redução de 20% a 90% na viabilidade das células. Quanto maior a concentração e o tempo de exposição, menor a viabilidade.
  • Cambuci: redução de 20% a 60%, sem a mesma relação entre dose, tempo e resposta.
  • Pectinas de frutas cítricas: não apresentaram o mesmo efeito nas condições analisadas, o que sugere que a composição e a estrutura das fibras influenciam a ação sobre as células.

O que "redução da viabilidade" significa

Na prática, uma viabilidade menor quer dizer que uma parcela menor das células permaneceu viva e funcional depois do contato com as fibras. Isso não significa, necessariamente, que todas tenham morrido. Os cientistas ainda não sabem exatamente o que provocou o resultado. Uma hipótese é que as fibras estimulem a apoptose, a morte celular programada; outra é que interrompam o ciclo celular e impeçam as células de se multiplicar. "Nós vamos estudar se essa diminuição de viabilidade se deu por uma indução de apoptose ou por uma parada no ciclo celular", disse Fabi, em declaração divulgada pelo INCT FoRC/USP.

Por que ainda não dá para falar em tratamento

Os resultados foram obtidos com fibras isoladas e aplicadas diretamente sobre células de câncer em condições controladas. Isso é diferente do que ocorre quando uma pessoa come a fruta: o alimento passa pela digestão e suas substâncias podem se transformar antes de interagir com o organismo. Os experimentos também não foram feitos em animais nem em seres humanos. Portanto, o estudo não permite afirmar que consumir pitanga ou cambuci previne ou trata o câncer. Segundo a divulgação, o trabalho ainda não havia sido publicado em revista científica, e a pesquisa lembra que serão necessárias novas investigações para saber se há alguma aplicação na saúde humana.

O que vem a seguir

A equipe pretende fazer novos experimentos com células e, depois, avançar para testes em animais, etapa que deve ser aprofundada ao longo dos próximos dois a três anos. Os cientistas também querem entender como as fibras interagem com a microbiota intestinal, o conjunto de microrganismos que vive no intestino.

O projeto tem ainda um objetivo alimentar e industrial: criar novos ingredientes a partir de espécies nativas e aproveitar partes das frutas que seriam descartadas no processamento. Pitanga e cambuci precisam ser colhidas maduras e duram pouco depois da colheita, o que dificulta a vida dos produtores. Os pesquisadores estudam alternativas de processamento e armazenamento, como ingredientes obtidos por secagem e extração, além dos produtos já conhecidos, como polpas, sucos e sorvetes. O grupo pretende incluir a uvaia, outra fruta nativa, nas próximas etapas.

Câncer colorretal: por que o tema importa

O câncer colorretal é um dos mais comuns do mundo e a dieta é um dos fatores estudados na prevenção. A recomendação médica de rastreamento e de uma alimentação rica em fibras segue valendo independentemente de qualquer estudo em fase laboratorial. Quem tem sintomas intestinais persistentes, sangue nas fezes ou histórico familiar deve procurar atendimento médico.