Uma equipe do RIKEN, instituto de pesquisa do Japão, desenvolveu uma técnica experimental que aproveita uma substância liberada por células cancerígenas, o monóxido de carbono (CO), para fabricar dentro delas um composto capaz de danificá-las. O trabalho, liderado por Katsunori Tanaka, foi publicado na revista Nature Communications, em 17 de setembro, segundo a reportagem do Metrópoles, e ganhou divulgação internacional em outubro. Por enquanto, tudo foi feito em células cultivadas em laboratório.
A ideia por trás do método
Um dos desafios da quimioterapia é atingir as células tumorais sem lesar os tecidos saudáveis. A proposta dos japoneses inverte a lógica: em vez de aplicar diretamente uma droga tóxica, fazer com que o próprio tumor produza o composto que o ataca. Embora seja conhecido como gás tóxico, o monóxido de carbono também é gerado naturalmente pelas células, e alguns tipos de câncer o liberam em quantidade elevada. É esse excesso que o grupo quis usar como matéria-prima.
Como funciona
- Catalisador: os pesquisadores usaram um composto organometálico com paládio, metal capaz de desencadear uma reação química na presença de monóxido de carbono. A reação produz uma molécula chamada fenantridinona, que pode ter ação tóxica contra células cancerígenas.
- Proteção: dentro das células, a glutationa poderia desativar o paládio antes da reação. Para evitar isso, o composto foi protegido com albumina, proteína do sangue que também funciona como transportadora.
- Ajuste final: em uma segunda etapa, o sistema foi modificado para gerar uma versão mais tóxica da molécula, do tipo usado em fármacos anticâncer.
"Moléculas naturalmente presentes ou geradas no organismo são utilizadas como matéria-prima química para sintetizar moléculas terapêuticas diretamente no local da doença", explicou Tanaka, segundo o Metrópoles.
O que os testes mostraram
A equipe testou o sistema em células de câncer de fígado, colo do útero, mama e pulmão, além de células não cancerígenas. Após 48 horas, a fenantridinona foi detectada nas células tumorais, mas não nas saudáveis. Nos testes com células de câncer de fígado, o composto foi formado no interior delas e provocou danos. Os pesquisadores também avaliaram se a reação poderia ocorrer antes de o sistema chegar ao tumor: o medicamento não causou dano na circulação sanguínea. Uma hipótese é que o monóxido de carbono presente no sangue esteja ligado à hemoglobina e, por isso, indisponível para a reação.
Limites do estudo
Outros veículos que cobriram o trabalho, como o site News-Medical, destacam que os dados são de linhagens celulares e que não há resultados em animais nem em pessoas. Resumos da pesquisa também descrevem o efeito anticâncer relatado como modesto e com diferença limitada de toxicidade entre células tumorais e normais, e a explicação para a ausência da reação no sangue é uma suposição. Por isso, manchetes que falam em "remédio contra o câncer" simplificam o que, até aqui, é uma prova de conceito.
Próximos passos
Os pesquisadores planejam testar o método em modelos animais para avaliar segurança e eficácia antes de considerar qualquer uso em pacientes. Só depois, se os resultados se sustentarem, seriam necessários estudos clínicos em pessoas, etapa que costuma levar anos.



