Com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25), com cerca de 51,8% dos votos válidos, a agenda econômica do novo mandato passa a depender de uma conta apertada. Reportagem do Estadão, publicada na véspera da votação, resume o tamanho do desafio fiscal de quem assumisse a Presidência.
Os números da conta
- Juros: o governo precisa desembolsar hoje cerca de R$ 1,182 trilhão por ano para pagar juros da dívida pública. Projeções do FMI citadas pelo jornal indicam que só dois países devem gastar mais com juros que o Brasil neste ano: Egito e Bahrein.
- Dívida: a dívida bruta atingiu 82,9% do PIB (R$ 11,1 trilhões) em agosto de 2026, segundo o Banco Central.
- Resultado primário: o governo projeta déficit de R$ 80,9 bilhões em 2026, agravado, segundo o Estadão, por medidas lançadas para a campanha de reeleição. Para 2027 há superávit estimado de R$ 18,6 bilhões, mas o Orçamento terá de ser refeito, com revisão de receitas e discussão sobre como acomodar as promessas da campanha.
- Rigidez do gasto: as despesas obrigatórias somam 92% do Orçamento. Previdência e benefícios sociais são reajustados pelo salário mínimo, que cresce acima da inflação. Saúde e educação são vinculadas à arrecadação. Somados a assistência, esses gastos superam 80% do Orçamento.
- Bolsa Família: Lula reajustou o benefício em 15% a 17 dias do primeiro turno. A equipe econômica diz que o aumento será acomodado por remanejamento de rubricas.
O que dizem os especialistas
O consultor de Orçamento do Senado Daniel Couri afirmou ao jornal que a medida mais efetiva é recuperar rapidamente a credibilidade fiscal, usando "o capital das eleições" para enfrentar a indexação do Orçamento. O Estadão registra também que o adversário, Flávio Bolsonaro (PL), igualmente passou a negar cortes em programas sociais e mudanças no reajuste de benefícios, embora prometesse ajuste fiscal.
O que o mercado monitorava
Em relatório divulgado no dia da votação, economistas do Goldman Sachs escreveram que uma diferença inferior a 1 ponto percentual poderia aumentar o risco de contestação e ser lida como mandato frágil, enquanto margem superior a 4 pontos daria "um mandato claro". O banco também apontou que o foco após a eleição estaria na composição ministerial e nos sinais sobre políticas e reformas. Segundo os economistas, o PIB per capita cresceu em média apenas 0,15% entre o terceiro trimestre de 2011 e o segundo de 2026, e o investimento real estava 8,3% abaixo do pico de 2013. Lula venceu com margem de cerca de 3,5 pontos sobre Flávio, entre os dois patamares citados pelo banco. A reação dos mercados à noite está em outra reportagem do Tendência News.
Análise
Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.
Os números mostram que o problema fiscal brasileiro é menos de arrecadação e mais de estrutura: quando 92% do Orçamento está carimbado ou indexado, qualquer governo, de qualquer partido, tem pouca margem para escolher prioridades. Uma linha liberal defenderia atacar a raiz, ou seja, desindexar benefícios e pisos, rever vinculações e conter despesas, em vez de buscar equilíbrio apenas por mais receita. A gravidade é maior porque a campanha de ambos os lados evitou falar em cortes. A credibilidade do arcabouço fiscal depende de metas cumpridas sem artifícios, e o Orçamento de 2027, que precisa ser refeito, será o primeiro teste. Se o novo mandato usar o capital político da vitória para um ajuste crível, os juros tendem a ceder; se adiar, quem paga é o contribuinte, com inflação, juros altos e menos investimento.