O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, passou a ser criticado pelo Banco de Israel, por economistas e por adversários políticos depois de sugerir que o país poderia recorrer a criptomoedas e à tecnologia blockchain para contornar eventuais sanções internacionais. A declaração foi dada em entrevista ao Channel 10 na sexta-feira (23), a poucos dias da eleição israelense, marcada para terça-feira (27), segundo a Reuters, reproduzida pelo Al-Monitor.

O que Netanyahu disse

Na entrevista, Netanyahu afirmou que se prepara para um cenário de sanções mais amplas contra Israel, inclusive sobre bancos, e que seria preciso montar uma "economia de desvio" ("bypass economy"). Perguntado se falava de criptomoedas, respondeu "Very true, very true" (algo como "verdade, verdade") e acrescentou que o blockchain era outra possibilidade, de acordo com a Reuters. Até o momento, o governo não anunciou nem implementou nenhum mecanismo desse tipo.

O pano de fundo é o isolamento diplomático crescente do país. No mês anterior, Reino Unido, França e Canadá anunciaram o bloqueio de importações de produtos de assentamentos israelenses na Cisjordânia, medida que o Cointelegraph Brasil descreve como parte de um movimento de cerca de uma dúzia de países ocidentais, motivado por ataques de colonos a palestinos e pela expansão de assentamentos.

Quem criticou

  • Banco de Israel: em uma crítica pouco comum a um chefe de governo, o banco central afirmou que criptomoedas não podem servir de rota para driblar sanções. Defendeu que os líderes políticos concentrem esforços em políticas que tornem tais medidas desnecessárias, preservando as relações econômicas com os principais parceiros comerciais.
  • Economistas: mais de 100 profissionais assinaram, no domingo (25), uma carta de alerta, entre eles ex-integrantes do Banco de Israel, o ex-presidente da instituição Jacob Frenkel e vencedores do Prêmio Nobel. O texto diz que a proposta levaria a mais desemprego, menos investimento estrangeiro e perda de posição da economia israelense, e cita África do Sul, Irã e Rússia como exemplos de países cujo padrão de vida caiu sob sanções.
  • Oposição: Gadi Eisenkot, principal rival de Netanyahu na eleição, chamou o plano de "loucura" e usou o apelido "BibiCoin" para a ideia, dizendo temer que ela leve empresas para o exterior e prejudique a segurança nacional. O líder da oposição, Yair Lapid, afirmou que Netanyahu "saiu dos trilhos" e disse que ele prometeu aos cidadãos filas por pão como na Rússia e no Irã.
  • Mercado e imprensa: segundo o Cointelegraph Brasil, o colunista Nadav Eyal, do Yediot Ahronot, argumentou que criptomoedas não substituem um sistema financeiro nacional, e Ben Samocha, fundador da CryptoJungle, disse que o rastreamento em blockchain permite identificar e congelar fundos ilícitos.

A resposta do governo

A reportagem da Reuters não traz resposta oficial do governo às críticas do banco central, dos economistas ou da oposição. No domingo, Netanyahu seguiu defendendo seu histórico e pediu votos, sem detalhar a proposta de criptomoedas. Segundo o Al-Monitor, ele disse que vai considerar a recomendação do Banco de Israel, mas decidirá por conta própria. As pesquisas apontam para um possível impasse, sem maioria clara para a coalizão governista nem para a aliança de oposição.

Análise

Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.

A reação do Banco de Israel merece atenção justamente por vir de uma instituição técnica e independente: é o tipo de contrapeso que protege a moeda e o crédito de improvisos políticos. De uma ótica liberal, a prosperidade de uma economia aberta depende de regras estáveis, bancos integrados ao sistema financeiro global e previsibilidade para quem investe e empreende. Um plano de "economia de desvio" anunciado em plena campanha, sem detalhes, transfere esse risco para famílias e empresas. A mesma régua vale para qualquer governo: anunciar a fuga de sanções antes de discutir como evitá-las, ou como prestar contas ao eleitor, enfraquece a transparência que o debate público exige. Cabe lembrar, em equilíbrio, que os críticos também são parte da disputa eleitoral e que a ideia ainda não passou de uma frase em entrevista.