O primeiro turno das eleições de 2026, em 4 de outubro, teve a maior abstenção desde 1998, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgados pela imprensa. Dos 158.745.463 eleitores aptos, mais de 33 milhões não compareceram às urnas: a taxa foi de 21,08%, contra comparecimento de 78,92%. Os números chegam na véspera do segundo turno, em 25 de outubro, e o TSE avisa que quem faltou no primeiro turno ainda pode votar.
Os números
A série de primeiros turnos reunida pelo NSC Total mostra uma alta contínua nas últimas duas décadas: 16,75% em 2006, 18,12% em 2010, 19,39% em 2014, 20,33% em 2018 e 20,95% em 2022. Em 2026 foram 21,08%. A diferença para 2022 é pequena, de 0,13 ponto percentual, mas em número absoluto o contingente de ausentes subiu (de cerca de 32,7 milhões, em 2022, para mais de 33 milhões). Observação: o Diário do Grande ABC cita 20,95% e também 20,79% para 2022 em trechos diferentes da mesma reportagem; usamos aqui o valor que coincide com o do NSC Total.
Onde mais e onde menos faltaram
Os maiores índices de abstenção foram registrados em Mato Grosso do Sul (23,85%), Rio de Janeiro (23,31%), Minas Gerais (22,62%), São Paulo (22,54%) e Mato Grosso (22,18%). Os menores, no Ceará (15,33%), Piauí (17,07%), Roraima (17,10%), Sergipe (17,27%) e Paraíba (17,36%).
Sinais antes da votação
Pesquisa Travessia feita para o Estadão e divulgada em 2 de outubro indicava que 78,5% dos entrevistados tinham certeza de que votariam e 20,2% não tinham certeza, número próximo ao da abstenção que se confirmou.
O que explica a alta
As reportagens consultadas não apontam uma causa comprovada. O NSC Total sugere, como interpretação do próprio veículo, que a série reflete "desinteresse, afastamento ou indiferença do eleitor". Não há, nas matérias lidas, recorte por idade nem análise de especialistas, e por isso este texto não atribui o fenômeno a um fator específico.
E quem faltou?
Quem não votou no primeiro turno pode votar no segundo. A ausência, porém, precisa ser justificada: o TSE informa que isso pode ser feito pelo aplicativo e-Título, pelo site da Justiça Eleitoral ou presencialmente em cartórios. Segundo o tribunal, ausências não justificadas podem gerar multa, bloqueio do CPF e restrições para obter passaporte ou assumir cargo público.
Análise
Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.
O recorde de ausências reabre um debate que o dado sozinho não resolve: o voto obrigatório. De uma perspectiva liberal, o direito de escolher inclui o de não escolher, e sanções como multa e bloqueio de CPF tratam como infração uma forma de manifestação do cidadão. Por outro lado, defensores do sistema argumentam que a obrigatoriedade sustenta a legitimidade do resultado e o hábito cívico. O que os números mostram é que, mesmo com as penalidades, um em cada cinco eleitores não compareceu, e a série cresce há quase vinte anos. Se a punição não reverte a tendência, vale discutir com dados se ela cumpre o papel pretendido, e como recuperar a confiança do eleitor por meios que respeitem sua liberdade.