O conselho editorial do jornal americano The New York Times publicou neste domingo (25), dia do segundo turno no Brasil, um editorial criticando a interferência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em eleições de outros países, com o Brasil como exemplo mais recente. O texto, reproduzido pela Folha de S.Paulo, diz que a prática prejudica a democracia e os próprios interesses americanos.
O que diz o editorial
Segundo o jornal, os EUA têm um histórico problemático de interferência em eleições estrangeiras, concentrado na Guerra Fria, e nas últimas décadas passaram a evitar manifestar preferência por candidatos. O editorial afirma que Trump leva o país de volta a esse passado: nos últimos dois anos, ele ou integrantes do gabinete teriam endossado candidatos na Argentina, na Colômbia, em Honduras, na Hungria, em Israel, no Japão e na Polônia.
Sobre o Brasil, o texto diz que Trump não endossou formalmente Flávio Bolsonaro (PL), em parte por receio de que isso tivesse efeito contrário, segundo um assessor da Casa Branca citado ao Washington Post, mas "fez tudo, menos declarar oficialmente seu apoio". O jornal lista a tarifa de 50% sobre a maior parte das importações brasileiras, imposta em 2025, e as sanções contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, relator do julgamento de Jair Bolsonaro, e contra a mulher dele. Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe.
O editorial também menciona uma carta de parlamentares democratas ao secretário de Estado, Marco Rubio, que acusa o governo de uma "campanha contínua e multifacetada de interferência e desestabilização no Brasil", e a queixa do presidente Lula na ONU contra "interferência externa nos processos eleitorais". O jornal reconhece que "é impossível saber quão eficaz foi a interferência" e lembra que movimentos semelhantes tiveram efeito oposto, como a passagem do vice-presidente J. D. Vance pela Hungria em favor de Viktor Orbán, que perdeu o poder pouco depois.
Contexto: o que o NYT já havia publicado
Em 28 de setembro, o mesmo jornal publicou uma reportagem, em outro formato, que tratava o Brasil como o "maior teste regional" da influência de Trump na América Latina e dizia que o governo americano teria ajudado, de forma indireta, a candidatura de Flávio. Essa reportagem não traz, segundo a versão lida, comentário do governo brasileiro nem da Casa Branca. O editorial de domingo, por sua vez, é um texto opinativo do conselho editorial e não incluiu resposta do governo Trump na versão reproduzida pela Folha.
Análise
Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.
Num regime democrático, quem decide o resultado de uma eleição é o eleitor local, e isso vale para pressões vindas de qualquer capital, de Washington a Moscou ou Pequim. Tarifas e sanções usadas para influenciar a política interna de outro país são incompatíveis com o respeito à soberania e ao livre comércio que uma ordem liberal defende. Ao mesmo tempo, o editorial é um texto de opinião de um jornal com linha própria, e a interferência que descreve deve ser avaliada pelos fatos, não só pela adjetivação: as tarifas, as sanções e as declarações públicas são verificáveis; a intenção eleitoral por trás delas é interpretação. O mesmo rigor vale para o outro lado do debate: o discurso de que o Brasil sofre interferência não substitui a prestação de contas do governo brasileiro sobre suas próprias decisões e alianças internacionais.