Com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reeleito no segundo turno de domingo (25), conforme a apuração do TSE com 99,77% das seções contadas (veja a cobertura do resultado), a pergunta que passa a ocupar Brasília é como o presidente vai governar com o Congresso que as urnas também escolheram. Duas análises publicadas antes da votação, da Folha de S.Paulo e do Estadão, descrevem esse cenário para qualquer dos dois candidatos. A posse está marcada para 5 de janeiro de 2027.
Os números da Câmara e do Senado
Segundo a Folha, a esquerda elegeu 124 deputados em um universo de 513. A maioria simples é de 257 votos, e para mudar a Constituição são necessários 308. O PL, partido de Flávio Bolsonaro, tem a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e, no Senado, ocupa 28 das 81 cadeiras, de acordo com o mesmo jornal.
Isso significa que nenhum dos dois polos tem, sozinho, votos para aprovar o que quiser. Para a Folha, a bancada do PL sozinha não bastaria nem para um eventual governo de Flávio, sobretudo diante da intenção, anunciada por ele, de alterar a Constituição.
O papel do centrão
Para o jornal, a saída conhecida para um governo Lula é a mesma do terceiro mandato: manter uma aliança com o centrão e com partidos de centro, como MDB e PSD, oferecendo cargos no ministério. A própria Folha ressalva que isso não evitou a derrota do governo na votação do IOF em 2025, quando mais de 70% desses aliados votaram contra o Planalto, mas diz que garante "um começo".
O mesmo vale para a oposição, segundo a análise: mesmo em um Congresso mais à direita, o centrão e o centro não seriam dispensáveis para quem estivesse no Planalto.
Emendas, a moeda de troca
A Folha afirma que o preço da fidelidade do centrão é a manutenção dos R$ 61 bilhões em emendas parlamentares previstos para este ano. O jornal registra que o ministro do Supremo Flávio Dino, ex-ministro de Lula, lidera uma ofensiva contra a prática e que o presidente, apesar do discurso duro, só teria arranhado o arranjo por meio dessa campanha. Sobre Flávio Bolsonaro, a Folha escreve que ele conta com o que vê como um Congresso ideológico, mas que, segundo o jornal, em privado defende as emendas.
Dois diagnósticos diferentes
Na coluna publicada no sábado (24) no Estadão, Eliane Cantanhede resume que, se Lula vencesse, "seu grande problema será o Congresso", enquanto, se Flávio vencesse, o maior desafio seriam "as ruas e redes". Em ambos os casos, escreve a colunista, o futuro presidente encontraria instituições "machucadas", uma crise fiscal e um país dividido ao meio. Trata-se de uma avaliação de opinião, publicada antes do resultado.
Entre os temas que já seguem para o Legislativo está uma PEC da tarifa zero no transporte coletivo, enviada pelo Planalto em 21 de outubro e que depende de votação no Congresso.
O que ainda não está definido
As análises citadas foram escritas antes do resultado final. Nas fontes consultadas, não há anúncio de ministérios nem de composição da base aliada do próximo governo. Os números de bancada citados vêm da Folha e podem mudar com trocas partidárias.
Análise
Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.
O retrato do novo Congresso confirma um problema que independe de partido: o equilíbrio entre os Poderes tem sido mediado por emendas parlamentares que, na prática, trocam recursos públicos por votos. Para quem defende instituições fortes e Estado de Direito, é preocupante que R$ 61 bilhões por ano circulem com pouca transparência sobre critérios e destino, e que a governabilidade de qualquer presidente dependa dessa engrenagem.
A linha liberal pede o mesmo rigor para os dois lados. Um governo que promete responsabilidade fiscal precisa mostrar de onde sai o dinheiro de suas promessas, e uma oposição que defende a redução do Estado não pode, ao mesmo tempo, proteger o mecanismo que o infla. A reforma do Orçamento, a rastreabilidade das emendas e o respeito às decisões do Judiciário são testes para o presidente eleito e para o Parlamento, seja qual for a bancada.