A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), confirmada na noite de domingo (25), provocou forte reação nos ativos brasileiros negociados fora do horário da B3. Os números abaixo vêm de contratos e fundos que operam no exterior ou à noite. O que valerá é o pregão desta segunda-feira (26).
O que aconteceu à noite
Segundo a Bloomberg Línea, os contratos futuros de dólar na CME subiram cerca de 11%, de R$ 5,01 para aproximadamente R$ 5,56, com máxima de R$ 5,68. O ETF NEXT Funds Ibovespa Linked, negociado em Tóquio, caiu 14,37%, apagando um ganho de quase 8% obtido após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro (PL) liderou. A InfoMoney informa que o EWZ, ETF que replica o MSCI Brazil nos EUA, caiu quase 20% no after market.
Um detalhe lembrado pela Bloomberg Línea: o JPMorgan havia estimado que uma deterioração fiscal gradual poderia derrubar as ações brasileiras em 21% e o real em cerca de 6%; a queda noturna da moeda já superaria essa estimativa. A agência observa também que o movimento pode refletir pouca liquidez.
O que dizem os analistas
- Sidney Lima (Ouro Preto Investimentos): espera "uma semana de maior cautela", com Ibovespa pressionado, dólar em alta e juros futuros subindo, por receio do crescimento da dívida sem medidas de estabilização.
- Gabriel Uarian (Cultura Capital): vê possibilidade de queda superior a 5% da bolsa e risco de circuit breaker.
- Gabriel Pinheiro (GT Capital): afirma que o mercado havia comprado a tese de alternância de poder; após o primeiro turno o Ibovespa subiu 7,7% em um pregão, a 209,6 mil pontos, e o dólar caiu a R$ 5,00. Antes, estava perto de 192 mil pontos e R$ 5,22.
- Homin Lee (Lombard Odier): considera inevitável reverter parte relevante do rali, mas diz que valuações atrativas e exposição a commodities dão suporte.
- Bradesco BBI: rebaixou taticamente o Brasil de overweight para neutro; projeta dívida bruta de 83,6% para 88,2% do PIB nos próximos anos e passou a preferir exportadoras e empresas de receita previsível, como Embraer, Suzano, WEG e JBS.
Uma pesquisa do Citi com investidores, feita na sexta-feira (23), indicava que 79,5% esperavam queda superior a 5% do Ibovespa em caso de vitória de Lula. Setores como varejo, construção e bancos ligados ao crédito ao consumidor aparecem entre os mais pressionados; mineração e agronegócio, que têm receita em dólar, entre os mais protegidos.
Contexto da votação
Lula teve cerca de 51,8% dos válidos e mais de 64 milhões de votos, recorde em eleição presidencial, de acordo com a InfoMoney, com abstenção de 19,21%, a menor desde 2006. A Bloomberg Línea, citando Lee, aponta que é a primeira vez desde a Constituição de 1988 que um candidato atrás no primeiro turno vence o segundo. As pesquisas analisadas pela Manchester Investimentos, 13 no total, apontavam Flávio à frente por 2,4 pontos em média.
O que vem a seguir
Para o analista Gustavo Sung (Suno Research), após 2022 a bolsa recuperou terreno quando o governo apresentou medidas fiscais; o desempenho de 2027 dependerá da política econômica e da negociação com o Congresso, onde Lula não tem maioria própria. O Bradesco BBI diz que voltaria a recomendar posição acima da média diante de correção mais forte, de um pacote fiscal crível ou do início de cortes de juros.
Análise
Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.
A reação dos preços é um recado objetivo: investidores precificaram a dívida e a rigidez do Orçamento, e não apenas a identidade do vencedor. Um mercado livre pune promessas de gasto sem lastro e premia regras previsíveis, e isso vale para qualquer governo. Quem paga a conta de dólar e juros mais altos é o consumidor comum, que enfrenta preços e crédito mais caros. O caminho de recuperação, como o próprio histórico de 2022 sugere, passa por sinais críticos: meta fiscal levada a sério, nomes técnicos na equipe econômica, respeito às regras do arcabouço e reformas que reduzam despesas obrigatórias. Sem isso, a queda desta semana tende a ser só o começo.