A revista Veja publicou na segunda-feira (2) mensagens que, segundo a reportagem, foram encontradas pela Polícia Federal (PF) no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. As conversas, de 2025, tratam do uso de um apartamento de luxo em São Paulo por Erika Schneider, modelo e ex-participante do reality "A Fazenda", e de um anel que o banqueiro teria dado a ela. O conteúdo foi divulgado pela coluna Radar, da revista, e reproduzido por outros veículos. O Tendência News não teve acesso direto aos autos, e tudo o que se descreve abaixo é atribuído à reportagem.

Erika Schneider não aparece, nas reportagens consultadas, como investigada. Ela é citada apenas como interlocutora nas conversas.

O que dizem as mensagens

Segundo a Veja, as conversas mostram que Erika passou a ocupar um apartamento em um dos edifícios mais luxuosos da capital paulista, por meio de um contrato que fixava um período de uso do imóvel. Alguns veículos descreveram a situação como "presente" ou "doação" do imóvel; as reportagens, porém, falam em contrato por tempo de uso, e não em transferência de propriedade.

Em uma das mensagens reproduzidas, ela agradece ao banqueiro: "Todos os dias, quando chego nesse apartamento lindo, transbordo gratidão". Vorcaro agradece e pergunta como ela está, e a conversa não prossegue naquele momento.

Meses depois, Erika escreve que pessoas ligadas à administração do imóvel, entre elas uma mulher identificada como Regiane e um homem chamado Fábio, estiveram no apartamento, e diz ter ficado assustada. Vorcaro responde que conversaria com ela depois.

Pouco antes da prisão do banqueiro, ela volta ao assunto, afirma que uma nova visita havia ocorrido e se oferece para deixar o imóvel: "Se precisar, eu desocupo antes. Não quero ser um problema pra você". A resposta registrada é: "Fica em paz".

O anel e a viagem a Cannes

Em outra conversa, de meados de 2025, Erika conta que foi roubada ao chegar a Cannes, na França, e perdeu um anel que, segundo ela, havia sido dado por Vorcaro. "O anel que você me deu chegando em Cannes me roubaram, estou devastada!", escreveu. O banqueiro respondeu: "Sério? Que pena. Como você tá?".

O que ela já havia dito publicamente

O Extra e o iBahia, citando a Veja, lembram que em maio de 2026 Erika disse, em entrevista ao programa "Isso Não É um Talk Show", que não teve romance nem namoro com Vorcaro, mas admitiu que os dois tiveram alguns encontros. Para o Extra, as mensagens indicam uma relação menos simples do que a descrita por ela.

Resposta dos citados

A coluna Radar informou ter tentado contato por telefone com Erika Schneider, sem retorno até a publicação, e disse que registraria a posição dela quando ela se manifestasse. Nas reportagens consultadas, não havia manifestação da defesa de Vorcaro sobre o conteúdo das mensagens. A defesa de Erika Schneider não havia se manifestado nas reportagens consultadas até a publicação. Presunção de inocência vale para todos os citados.

Contexto: o caso Banco Master

Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 ou 18 de novembro de 2025 (as fontes divergem entre as duas datas), no aeroporto de Guarulhos, na Operação Compliance Zero, segundo a CNN Brasil e o Poder360. A investigação apura a suposta emissão de títulos de crédito falsos e a criação de carteiras de crédito sem lastro, vendidas a outro banco, com suspeitas de gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa. No mesmo dia, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master e de sua corretora de câmbio. A CNN Brasil informa que a defesa afirmou que ele viajava a Dubai a negócios, e o banco disse que se colocava à disposição das autoridades.

Segundo o Estadão Conteúdo, publicado pelo O Liberal, ele foi preso novamente em São Paulo em 4 de março de 2026, na terceira fase da operação. Em depoimento à PF em 28 de agosto, segundo o Poder360, afirmou que não esperava a liquidação e só soube dela ao ser preso, e atribuiu a rejeição, pelo Banco Central, da incorporação do Master pelo BRB a um "ataque midiático" contra o banco. O mesmo depoimento tratou de possíveis pagamentos de propina a ex-diretores de fiscalização do Banco Central, apuração em curso, sem condenação até aqui nas reportagens lidas.

O que vem a seguir

As mensagens divulgadas fazem parte do material extraído do celular de Vorcaro, que a PF vem analisando e que tem sido divulgado aos poucos pela imprensa. Não há, nas reportagens consultadas, indicação de que o contrato do apartamento seja alvo de medida judicial específica. Cabe à PF e ao Judiciário dizer se e como esse material entra nas investigações.

Análise

O episódio mostra o que costuma acontecer quando um banco depende de relações pessoais e de proximidade com o poder, e não apenas de contratos claros: o público só descobre os arranjos depois da quebra. Se as apurações confirmarem as suspeitas de que ex-diretores de fiscalização do Banco Central receberam vantagens, o problema deixa de ser de costumes e passa a ser de instituições. Um regulador que fiscaliza quem lhe paga perde a função de proteger correntistas e investidores, e a própria ideia de Estado de Direito, em que a regra vale igual para todos, fica em risco.

Hayek advertiu que o conhecimento necessário para decidir está disperso e que nenhuma autoridade o reúne por inteiro. Um sistema em que poucos reguladores têm discrição sobre quem sobrevive e quem é liquidado cria incentivo para que bancos invistam em influência, e não só em boa gestão. A resposta coerente com a propriedade privada e a responsabilidade individual é a transparência das regras, a responsabilização pessoal dos gestores e a punição de eventual corrupção, e não mais poder discricionário para os mesmos órgãos.

Há ainda uma questão de garantias. Mensagens privadas obtidas em investigação e divulgadas em trechos pela imprensa expõem terceiros que não são acusados de nada, como é o caso, até aqui, de Erika Schneider. O princípio da não agressão e a presunção de inocência exigem distinguir quem está sob investigação de quem apenas aparece numa conversa, e cobram cuidado das autoridades com o vazamento de material sigiloso, seja qual for o investigado e o governo da vez.