O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anuncia na quarta-feira (4) a nova taxa básica de juros, a Selic, hoje em 13,75% ao ano. É a primeira decisão relevante de política econômica depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno de 25 de outubro, e ocorre depois de uma semana de forte queda nos ativos financeiros. Até a publicação, o resultado não havia sido divulgado.

O choque nos mercados

Segundo o InfoMoney, o Ibovespa acionou o circuit breaker na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, emendou cinco sessões de queda e encerrou outubro com o pior desempenho mensal desde junho de 2022. A Folha de S.Paulo registra que a Bolsa, que chegou a tocar o patamar histórico de 200 mil pontos neste mês, recuou 17,5% na semana, o maior recuo semanal desde a semana encerrada em 20 de março de 2020, no início da pandemia.

No Tesouro Direto, os títulos prefixados tiveram a maior alta diária de taxas da série histórica, iniciada em 2005, e o Tesouro Nacional cancelou leilões e recomprou papéis para conter a volatilidade, de acordo com o InfoMoney. O dólar subiu e os juros futuros dispararam.

O que o mercado espera

A leitura dos analistas mudou em poucos dias. Antes do segundo turno, a discussão era quantos cortes adicionais o Copom ainda faria. Agora, diz o economista Leandro Padulla, do ASA, o debate inclui a interrupção imediata do ciclo de cortes, iniciado em março, que levou a Selic de volta a 13,75% após cinco reduções.

  • Opções de Copom na B3: a probabilidade de manutenção da Selic chegou perto de 70% no fechamento de quinta-feira (29), contra cerca de 30% de chance de corte de 0,25 ponto percentual, segundo o InfoMoney. Os contratos embutem ainda apostas residuais de alta.
  • Folha: a aposta da maioria dos economistas é que o colegiado interrompa o ciclo de cortes.
  • Bradesco: em relatório citado pelo InfoMoney, o banco projeta corte de 0,25 ponto, para 13,5% ao ano, embora admita que a projeção de inflação do BC deve subir por causa do petróleo mais pressionado e do real mais fraco.
  • Pausa defendida: Guilherme Ghidetti, da Jera Capital, e Gabriel Magno, da AW Capital, esperam um BC mais duro e defendem pausa com comunicado firme. Para Magno, um corte poderia provocar novas altas nos juros futuros, enquanto a manutenção mostraria que o BC "não vai ceder à pressão política".

Padulla não descarta um último corte: mesmo revisada para cima, a projeção do Copom pode ficar perto da meta. Mas, segundo ele, em um ambiente de expectativas mais desancoradas e maior incerteza fiscal, diminui o espaço para reduzir o grau de restrição monetária.

O pano de fundo fiscal

A apreensão vem principalmente das contas públicas. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em setembro, segundo o Banco Central. Pelos cálculos da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, a perda de arrecadação com as bets, o pacote para microempreendedores individuais e o reajuste do Bolsa Família devem gerar impacto fiscal de R$ 40 bilhões não previsto no orçamento, valor que não inclui outras promessas de campanha.

No discurso de vitória, Lula prometeu universalizar a escola de tempo integral até o ensino médio e criar o Pé-de-Meia universitário, sem mencionar déficit, dívida ou juros, observa Ghidetti. A Fazenda reafirmou o compromisso com a meta fiscal e diz ter medidas prontas, mas não detalhou quais. Na segunda-feira (2), Lula se reuniu com os ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento); não havia anúncio da nova equipe econômica até o fechamento da reportagem do InfoMoney.

O que olhar no comunicado

Para o investidor, uma pausa mantém o rendimento de aplicações pós-fixadas, como Tesouro Selic e CDBs atrelados ao CDI, no patamar atual por mais tempo. Títulos prefixados e atrelados à inflação seguem sujeitos à marcação a mercado e reagem à curva de juros após a decisão. Este texto é informativo e não é recomendação de investimento.

O comunicado deve indicar se a porta fica aberta para a reunião de dezembro, a última do ano. Na quarta saem também os dados de emprego formal do Caged. As expectativas do boletim Focus divulgado na terça (3), com Selic de 13,50% no fim de 2026, estão em nossa cobertura do Focus.

Análise

A taxa de juros é um preço, o mais importante da economia: ela coordena a troca entre consumo presente e futuro. Para Mises e para a teoria austríaca dos ciclos, quando juros são empurrados abaixo do que a poupança real sustentaria, o resultado é investimento mal alocado e, adiante, ajuste doloroso. Por isso a discussão da quarta-feira tem menos a ver com um ponto percentual a mais ou a menos e mais com a credibilidade de quem fixa esse preço.

O ponto fiscal é o centro da questão. Uma dívida bruta de 82,9% do PIB e R$ 40 bilhões em gastos e renúncias não previstos significam que alguém pagará a conta: o contribuinte, via imposto, ou todos, via inflação e juros mais altos. É o clássico "o que se vê e o que não se vê" de Bastiat: o benefício de um programa é visível; o custo difuso nos juros longos, que financiam empresas e famílias, não aparece na manchete.

A autonomia do Banco Central, aprovada em 2021, é uma tentativa de proteger a moeda da conveniência política de curto prazo. Hayek lembrava que o planejamento central falha porque nenhuma autoridade reúne o conhecimento disperso que os preços transmitem; vale o mesmo para a pressão sobre preços como os juros e o câmbio. Seja qual for a decisão do Copom, a segurança jurídica e a previsibilidade das regras valem mais para quem poupa, investe e empreende do que qualquer corte pontual. E a melhor política monetária é a que não precisa compensar o descontrole do gasto público.