O Banco Central do Paraguai (BCP) está no centro da crise do Ueno, o banco digital com cerca de 3 milhões de clientes que teve a resolução aberta na semana passada. O presidente da instituição, Carlos Carvallo, deixou o cargo, uma diretora assumiu de forma interina e a oposição questiona se o regulador agiu a tempo. Este texto reúne o que as reportagens consultadas informam sobre o papel do BC, sem tratar como provadas as acusações que ainda estão sob investigação.

O que o Banco Central decidiu

Segundo o InfoMoney, o BCP decidiu por unanimidade, em 2 de novembro, abrir um procedimento de resolução bancária no Ueno. O objetivo declarado é organizar o destino de ativos e passivos, proteger os depositantes e evitar contágio ao sistema financeiro. A Bloomberg Línea e o G1 situam a intervenção na madrugada de terça-feira (3), quando clientes encontraram agências fechadas e o aplicativo fora do ar.

O motivo apresentado pelo regulador foi o índice de solvência, que mede a capacidade de a instituição honrar compromissos. Depois de ajustes nas demonstrações financeiras feitos durante uma fiscalização, o indicador caiu para menos da metade do mínimo exigido, de acordo com as reportagens. Autoridades citadas pela imprensa afirmam que o Ueno representa menos de 9% do sistema financeiro paraguaio e que não há risco de contágio, informação que a Bloomberg Línea e outros veículos reproduzem como declaração oficial.

A saída de Carvallo e a presidência interina

O presidente Santiago Peña pediu a renúncia de Carlos Carvallo. Ele já havia dito ter assinado uma carta de demissão, mas pretendia seguir no cargo por ora para acompanhar a intervenção. Carvallo comandou a antiga Financiera Ueno até agosto de 2023, antes de chegar ao BC, vínculo que parlamentares citaram ao criticar a fiscalização. Segundo o InfoMoney, ele disse que a saída permitiria ao órgão conduzir o processo sem pressão política.

Como interina, assumiu a diretora Liana Caballero (também registrada como Liana Caballero Krause), economista com cerca de 18 anos de casa, segundo a imprensa paraguaia. O Senado havia aprovado, em julho de 2026, a renovação do mandato dela no diretório. As fontes divergem quanto ao nome completo e ao dia exato da troca; vale conferir comunicados oficiais do BCP.

Cronologia que alimenta as críticas

De acordo com a Bloomberg Línea, desde o início de setembro o jornal ABC Color publicava documentos internos do BC sobre práticas de crédito do Ueno. No fim daquele mês, o BC abriu uma investigação administrativa de quatro meses. Em outubro, a agência Fitch passou a perspectiva do banco para negativa, e os títulos em dólar do Ueno com vencimento em 2031 chegaram a render mais de 10% ao ano no início do mês, sinal de desconfiança do mercado.

A pergunta da oposição, segundo a Bloomberg Línea, é por que a fiscalização demorou e se a proximidade entre o governo e o banco pesou. O G1 relata que a oposição acusa o BC de encobrir irregularidades. Nas reportagens lidas não há decisão judicial nem conclusão de órgão de controle que comprove essa acusação.

Dinheiro público e garantia

O Ueno guardava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, segundo o G1 e a Reuters; a Bloomberg Línea fala em cerca de 5 trilhões de guaranis (US$ 869 milhões), 29% dos depósitos em junho. A garantia de depósitos cobre até 228 milhões de guaranis por pessoa (cerca de US$ 38 mil), conforme a Bloomberg Línea e a La Nación. Um plano de capitalização de US$ 100 milhões, metade vindo da controladora U Holdings, havia sido citado antes da intervenção. Peña acordou com o Congresso acelerar projeto que usa o Fundo de Garantia para pagar os depositantes. Detalhes sobre pagamentos estão em nossa matéria sobre a devolução dos depósitos.

Investigação e posição das partes

O Ministério Público abriu investigação criminal e determinou a prisão de oito pessoas ligadas ao banco, segundo o G1. Apura-se se o Ueno financiou indiretamente a venda de uma carteira de ativos de empresa do Grupo Vázquez, seu controlador. O banco negava a operação e irregularidades, de acordo com as reportagens. Ninguém foi condenado. Peña, que foi sócio do grupo até março de 2025, renunciou à Presidência no dia 5 (veja a cobertura da renúncia). A defesa de Carvallo não havia se manifestado, além da declaração sobre a renúncia, nas reportagens consultadas até a publicação.

O que vem a seguir

Ficam em aberto o cronograma de pagamento, o resultado da investigação administrativa do BC e a escolha do novo presidente da instituição, cuja nomeação depende do Executivo e do Senado.

Análise

O caso mostra o problema de colocar a confiança de milhões de pessoas na vigilância de um órgão estatal. Hayek chamou de problema do conhecimento a incapacidade de qualquer autoridade central de reunir as informações dispersas que decidem se um banco é sólido. Um regulador que, segundo as reportagens, tinha documentos sobre as práticas de crédito desde antes de setembro e só agiu depois da pressão da imprensa ilustra esse limite, e a lição não depende do partido no poder.

Há também a relação entre banco, governo e fiscalizador. Quando o chefe do regulador vem da instituição fiscalizada e o presidente foi sócio do controlador, o Estado de Direito exige transparência redobrada e investigação independente. Segurança jurídica é isso: regras iguais para o banco amigo do poder e para o desconhecido.

Por fim, a garantia de depósitos e o uso do Fundo de Garantia convertem o risco de uma gestão ruim em custo coletivo. A lógica austríaca de Mises e Huerta de Soto sobre o crédito sustentado por reservas fracionárias e por um banco central de última instância é que a expectativa de resgate estimula a assunção de risco. O que se vê é o depositante socorrido; o que não se vê, como lembra Bastiat, é quem arca com a conta e os incentivos que isso cria. A responsabilidade de controladores e administradores, apurada em juízo, é o contrapeso necessário.