A balança comercial brasileira chegou à quarta semana de outubro de 2026 com exportações em forte alta sobre o ano anterior, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), divulgados em 26 de outubro. O fechamento oficial do mês não havia aparecido nas reportagens consultadas até a publicação deste texto.

O que mostram os números de outubro

Até a quarta semana de outubro, o país exportou US$ 29,31 bilhões e importou US$ 21,86 bilhões, com superávit parcial de US$ 7,449 bilhões. Só na quarta semana, o saldo foi de US$ 1,690 bilhão, com exportações de US$ 8,461 bilhões e importações de US$ 6,771 bilhões.

Na média diária, as exportações somaram US$ 1,832 bilhão, alta de 27,9% sobre a média de outubro de 2025 (US$ 1,432 bilhão). As importações subiram 21,1%, para US$ 1,366 bilhão por dia.

Por setor, na média diária contra outubro de 2025:

  • Indústria extrativa: alta de 55,9% nas exportações, para US$ 8,51 bilhões no período;
  • Agropecuária: alta de 18,9%, para US$ 5,85 bilhões;
  • Indústria de transformação: alta de 18,4%, para US$ 14,70 bilhões.

Acumulado do ano

De janeiro até a quarta semana de outubro, as exportações somam US$ 314 bilhões e as importações, US$ 244,1 bilhões, com superávit de US$ 69,8 bilhões. Há uma divergência nas fontes: o Jornal do Comércio cita alta de 36,4% sobre o mesmo período de 2025 (US$ 52,985 bilhões), mas a conta entre os dois valores dá cerca de 31,8%. Por isso, este texto trata apenas os valores absolutos como firmes.

Setembro e a projeção do governo

Em setembro, o superávit foi de US$ 7,74 bilhões, contra US$ 3,14 bilhões em setembro de 2025. As exportações foram de US$ 34,42 bilhões (alta de 12,9%) e as importações, de US$ 26,68 bilhões (queda de 2,4%). Os preços dos produtos exportados subiram 9,9% e o volume embarcado, 2,3%. As vendas de petróleo bruto somaram US$ 6,49 bilhões, alta de 77,3%, segundo a Agência Brasil.

No início de outubro, o MDIC reduziu a projeção de superávit de 2026 de US$ 90 bilhões para US$ 84,4 bilhões, o que seria 24% acima dos US$ 68,1 bilhões de 2025 e o segundo maior da série, atrás dos US$ 98,9 bilhões de 2023. A razão foi a queda nas projeções do preço do petróleo: o Brent chegou a US$ 138 por barril em abril, após a entrada dos Estados Unidos na guerra com o Irã, e hoje gira em torno de US$ 100. A nova estimativa prevê exportações de US$ 382,5 bilhões (+9,8%) e importações de US$ 298,1 bilhões (+6,4%). Para cumprir a meta, seriam necessários cerca de US$ 22 bilhões de saldo entre outubro e dezembro; no último trimestre de 2025, o saldo foi de US$ 21,8 bilhões.

O diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do MDIC, Herlon Brandão, afirmou que o órgão está "prevendo três meses à frente" e que a estimativa está próxima do desempenho observado até setembro.

O que vem a seguir

O MDIC divulga o resultado fechado do mês nos primeiros dias úteis do mês seguinte, e a Secex atualiza os números semanalmente. O dado de outubro fechado e a revisão da projeção anual dirão se o ritmo de exportações de commodities se sustenta com o petróleo em queda.

Análise

O superávit comercial é frequentemente tratado como medida de sucesso, mas para a escola austríaca o ganho do comércio está nas importações: exportamos para poder comprar o que outros produzem melhor ou mais barato. Mises e Bastiat insistiram que o benefício é o consumo, não o saldo em dólares. O que se vê, o superávit, é menos importante do que o que não se vê: quanto o consumidor e a indústria brasileiros pagam a mais por insumos e bens importados por causa de tarifas e burocracia.

Os dados também mostram a dependência de preços de commodities. A alta do petróleo por causa de um conflito militar inflou temporariamente as receitas externas e a revisão para baixo da projeção veio quando o preço recuou. Receita que depende de guerra e de ciclos de preço não é prova de competitividade. A indústria de transformação cresceu 18,4% na média diária, mas o exportador brasileiro continua enfrentando o chamado custo Brasil: carga tributária complexa, tributos que incidem em cadeia e insegurança jurídica.

Hayek lembrava que nenhum planejador central reúne o conhecimento disperso em milhões de decisões de empresas. A agenda coerente com a liberdade econômica é abrir a economia: reduzir tarifas de importação, simplificar a tributação do comércio exterior e fechar acordos sem protecionismo setorial. Isso vale para qualquer governo, e a política de comércio exterior não deve depender do humor de quem ocupa o Planalto.