O relatório de emprego (payroll) dos Estados Unidos referente a outubro, divulgado nesta sexta-feira (6) pelo Departamento do Trabalho, mostrou a criação de 165 mil vagas fora do setor agrícola, bem acima da previsão de 65 mil da pesquisa da Reuters com economistas. A taxa de desemprego caiu para 4,1%, ante 4,2% em setembro, segundo as reportagens consultadas.

Os números do relatório

  • Vagas criadas em outubro: 165 mil, contra projeção de 65 mil (as estimativas da pesquisa variavam de 35 mil a 125 mil).
  • Setembro revisado: de 29 mil para 60 mil vagas.
  • Desemprego: 4,1%, ante 4,2% em setembro.
  • Salários: o ganho médio por hora subiu 3,1% em 12 meses. O economista Brian Jacobsen, da Annex Wealth, observou que, com a inflação mais alta, o salário real recuou.

Economistas ouvidos pela Reuters estimam que a economia americana precisa criar ao menos 40 mil vagas por mês para acompanhar o crescimento da população em idade de trabalhar. Esse ponto de equilíbrio era de cerca de 150 mil em 2024 e caiu com a redução da força de trabalho, associada por alguns analistas à repressão à imigração e a aposentadorias. As demissões seguem historicamente baixas.

Reação dos mercados

Antes da divulgação, os futuros do Dow Jones recuavam (-0,77% na leitura da InfoMoney), enquanto os do S&P 500 (+0,19%) e do Nasdaq (+1,08%) avançavam, depois de um dia de forte venda na quinta-feira (5). Naquele pregão, segundo o jornal O Anhanguera, o Dow Jones caiu 3,4%, a 51.523,06 pontos; o S&P 500 recuou 4,4%, a 7.353,73; e o Nasdaq perdeu 5,5%, a 24.315.

Após o dado, segundo a Reuters, os rendimentos dos Treasuries subiram: o título de 2 anos foi a 4,52% (+5 pontos-base), o de 10 anos a 4,88% (+4 p.b.) e o de 30 anos a 5,29%. O índice do dólar (DXY) avançou 0,7%, a 102,18. Os futuros de Wall Street ficaram mistos, com o Nasdaq em alta de 1,4% e o S&P 500 em 0,3%. Não encontramos, nas reportagens consultadas até a publicação, o fechamento oficial dos índices nesta sexta.

O que isso muda para os juros

No encontro anterior, o Federal Reserve (Fed) manteve a taxa básica entre 3,75% e 4,00%. Com o relatório, as apostas de alta de juros em dezembro subiram a 78%, ante 70% antes do dado, segundo a Reuters. Peter Cardillo, da Spartan Capital, avaliou que o Fed "não tem escolha" além de subir os juros e que a dúvida é se serão 25 ou 50 pontos-base. O relatório de inflação ao consumidor de outubro, previsto para a próxima terça-feira (10), é o próximo dado de peso. O mercado também acompanha o conflito no Oriente Médio, que elevou os preços de energia: o petróleo WTI era negociado perto de US$ 90 o barril nesta manhã.

Há ressalvas: economistas ouvidos pela Reuters atribuem parte do emprego baixo ao receio das empresas diante da inteligência artificial e da guerra com o Irã, e as cifras do payroll costumam ser revisadas nos dois meses seguintes.

Análise

Um mercado de trabalho que sustenta 165 mil vagas é, em si, boa notícia para quem busca emprego. O que preocupa é o que vem em volta: salário real em queda, juros longos acima de 4,8% e um banco central que agora discute subir a taxa. Para a escola austríaca, esse é o roteiro típico depois de um longo período de crédito barato. Mises e Hayek sustentavam que a expansão do crédito sem poupança real distorce os preços e os investimentos, e que a conta chega como inflação e, depois, como correção.

A leitura dos mercados nesta semana ilustra o problema do conhecimento descrito por Hayek: nenhum comitê, por mais técnico, sabe de antemão o nível "certo" de juros, e as bolsas oscilam fortemente a cada dado que sugere um passo diferente do Fed. Quando o preço do dinheiro é fixado por um órgão central, cada divulgação de emprego vira aposta sobre a próxima decisão burocrática, e não sinal de escassez e oportunidade.

Também vale o argumento de Bastiat sobre o que se vê e o que não se vê. Vê-se a taxa de desemprego em 4,1%. Não se vê o quanto do poder de compra dos salários foi corroído pela inflação, que atua como imposto sobre quem vive de renda do trabalho. A responsabilidade fiscal e monetária, aplicada a qualquer governo, é a defesa mais direta do bolso do trabalhador.