O Assaí (ASAI3) divulgou na quinta-feira (5) o balanço do terceiro trimestre de 2026 (3T26) e, na noite do mesmo dia, comunicou ao mercado a aprovação de seu quarto programa de recompra de ações. Os dois fatos colocaram a rede de atacarejo entre os destaques do radar corporativo desta sexta-feira (6), dia de balanços de várias empresas listadas na B3.
O que o Assaí lucrou no trimestre
O lucro líquido recorrente foi de R$ 248 milhões, alta de 55,2% sobre o mesmo período de 2025. O número ficou abaixo do consenso da Bloomberg, que apontava R$ 287 milhões, segundo o Money Times. O lucro líquido contábil somou R$ 427 milhões, avanço de 119%; a diferença para o recorrente vem de R$ 179 milhões em créditos extemporâneos de PIS/Cofins, de acordo com o levantamento de veículos especializados, que não entram no resultado recorrente.
Os principais indicadores, segundo as reportagens consultadas:
- Receita bruta: R$ 21,3 bilhões, alta de 2,7% em 12 meses.
- Receita líquida: R$ 19 bilhões, estável na comparação anual e em linha com o consenso.
- Ebitda ajustado: cerca de R$ 1,1 bilhão, com margem de 5,7%, praticamente estável.
- Vendas nas mesmas lojas: alta de 0,1% no trimestre e de 3,9% em outubro.
- Despesas operacionais: alta de 4,2%.
- Despesa financeira recorrente: R$ 551 milhões (juros e antecipação de recebíveis), queda de 8,8%, equivalente a 2,2 vezes o lucro recorrente.
Dívida em queda
A alavancagem, medida pela dívida líquida sobre o Ebitda, caiu para 2,15 vezes, ante 3,03 vezes um ano antes e 2,37 vezes no segundo trimestre de 2026. A redução da dívida líquida somada aos recebíveis descontados foi de R$ 1,3 bilhão em 12 meses. O volume de vendas antecipadas de recebíveis com desconto caiu de R$ 2 bilhões para R$ 1,2 bilhão. A geração de caixa livre nos últimos 12 meses foi de R$ 2,8 bilhões.
Recompra de até 11 milhões de ações
Em fato relevante, o conselho aprovou a compra de até 11 milhões de ações ordinárias, o equivalente a 0,814% dos papéis em circulação. O prazo é de 12 meses, a partir de 6 de novembro de 2026. As compras serão feitas na B3 a preço de mercado, e as ações ficarão em tesouraria para venda ou cancelamento posterior. A empresa diz que o objetivo é maximizar a geração de valor aos acionistas por meio da gestão da estrutura de capital. As reportagens consultadas não informam preço nem valor total do programa, nem a reação das ações ASAI3 após a divulgação.
Outros pontos do balanço
O CEO, Belmiro Gomes, disse esperar um "Natal mais gordo" para as famílias caso a proibição das bets seja mantida, e avaliou que o impacto de uma eventual mudança na escala 6x1 deve ser menor no atacarejo do que nos supermercados tradicionais. A empresa informou ainda 11 unidades do Assaí Farma em operação, com meta de 25 até o fim de 2026, alta de 204% nas vendas de entrega rápida (last mile) e a compra de 18 postos de combustível em lojas paulistas. A base de clientes passa de 40 milhões por mês.
Análise
O balanço mostra uma empresa que cresce pouco na venda e melhora o resultado pela via financeira: a receita líquida ficou parada, mas o lucro recorrente subiu porque a dívida e a despesa com juros diminuíram. É o caminho que o mercado livre cobra de quem se endividou demais, e a decisão de reduzir o passivo antes de distribuir capital é prudente. Ainda assim, uma despesa financeira que consome mais de duas vezes o lucro recorrente lembra que o juro alto é o principal imposto invisível sobre a atividade produtiva.
Esse juro não surge do nada. Na teoria austríaca dos ciclos, de Mises e Hayek, o crédito barato e a expansão monetária distorcem os sinais de preço e levam a investimentos que só se sustentam enquanto o dinheiro é fácil; quando o custo do capital sobe, a conta chega. A redução da dívida que o Assaí faz agora, sem socorro estatal, é um exemplo prático desse ajuste.
O crédito extemporâneo de PIS/Cofins, que inflou o lucro contábil, ilustra outro ponto: parte do que a empresa recebe de volta é tributo que o Estado cobrou a mais. Bastiat chamaria a atenção para o que não se vê, o investimento e o emprego que deixam de existir quando a carga tributária e a complexidade do sistema consomem o caixa do empreendedor.
Sobre a escala 6x1, o argumento de que o impacto varia por modelo de negócio mostra por que regras uniformes impostas por lei são problemáticas. Hayek ensinou que o conhecimento está disperso entre as pessoas; empregador e empregado, em cada setor, conhecem melhor suas necessidades do que o legislador. Acordos livres entre as partes tendem a ajustar jornada e salário com menos custo social do que uma norma única.
Por fim, a recompra, de apenas 0,814% das ações, é pequena e um sinal mais do que uma mudança de estrutura. Cabe ao acionista, não a este texto, avaliar se o preço é atrativo; esta publicação não faz recomendação de compra ou venda.



