A intervenção no banco digital Ueno, no Paraguai, deixou milhões de clientes sem acesso aos depósitos desde a terça-feira (3). Com a renúncia do presidente Santiago Peña nesta quinta (5), a pergunta de quem tinha dinheiro no banco é como e quando ele volta. Este texto reúne o que as reportagens consultadas informam sobre garantias, prazos e riscos, sem prometer datas que as autoridades não deram.

Quanto está em jogo

O Ueno tinha cerca de 3 milhões de clientes em um país de pouco mais de 7 milhões de habitantes, segundo o InfoMoney, e se tornou o maior emissor de cartões de crédito do Paraguai. A Bloomberg Línea o descreve como a sexta maior instituição bancária do país e diz que atendia um em cada três paraguaios. Segundo o G1, concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, e a La Nación afirma que aproximadamente US$ 380 milhões eram do Instituto de Previdência Social (IPS).

O que o Banco Central fez

O Banco Central do Paraguai decidiu, por unanimidade, abrir em 2 de novembro um procedimento de resolução bancária, conforme o InfoMoney. A medida organiza a destinação de ativos e passivos, protege depositantes e tenta evitar contágio. O índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo regulatório e houve créditos a empresas do mesmo grupo acima dos limites, segundo a La Nación. O Ueno negou irregularidades nas operações questionadas, segundo o InfoMoney.

Como será a devolução

Conforme a La Nación:

  • os primeiros pagamentos chegarão a até 10 milhões de guaranis (cerca de US$ 1.700);
  • a garantia de depósitos cobre até 228,3 milhões de guaranis por pessoa e instituição (cerca de US$ 38.000);
  • resgates de investimentos estão temporariamente suspensos enquanto o Banco Central avalia seu valor.

O G1 informa que Peña promulgou uma lei para que os clientes recuperem o dinheiro mais rapidamente. O texto não detalha prazos nas reportagens lidas. Valores acima do limite garantido dependerão da liquidação dos ativos do banco.

Sistema financeiro

Na quarta-feira (4) circularam relatos de falhas em aplicativos de outros bancos, segundo o G1. A Asoban, associação de bancos, disse que as instituições trabalhavam para atender o grande volume de clientes que migravam contas do Ueno e que o sistema continuava operando normalmente. O Banco Central do Paraguai é interinamente presidido por Liana Caballero desde a saída de Carlos Carvallo. A Bloomberg Línea cita em um título relacionado queda do guarani, mas o texto lido não traz dados de câmbio, e por isso não os apresentamos.

Investigação

O Ministério Público abriu investigação criminal. O G1 fala em 27 pessoas formalmente acusadas e bens bloqueados, e a Bloomberg Línea e a La Nación em oito detidos. A defesa dos acusados não aparece nas reportagens consultadas até a publicação, e acusação não é condenação.

Análise

A garantia de depósitos limitada a cerca de US$ 38.000 por pessoa mostra o caminho certo em um ponto: o risco deve ficar com quem decide onde aplicar. Mas a experiência paraguaia expõe o outro lado. Quando o Estado coloca recursos de aposentadoria em um banco e depois edita uma lei para acelerar o resgate, o custo recai, em última instância, sobre o contribuinte.

Mises explicava que o crédito concedido sem lastro em poupança real cria ilusão de riqueza e termina em ajuste doloroso. Empréstimos a partes relacionadas são a versão microeconômica disso. Bastiat diria que o que se vê são os poupadores na fila; o que não se vê são os critérios que levaram fundos públicos a se concentrar em uma só instituição. A resposta consistente com a propriedade privada é transparência total sobre quem decidiu, responsabilização de quem gerou a perda com os próprios bens e limites claros ao uso do dinheiro previdenciário, sem socorro que socialize o prejuízo.