O advogado e empresário Willer Tomaz de Souza, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), virou o centro de uma sequência de decisões e investigações que envolve a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal. A medida mais pesada até agora foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes em 23 de outubro de 2026: bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens. Tomaz nega irregularidades. Nada do que está descrito abaixo resultou em condenação.
O que decidiu o STF
Segundo a Itatiaia, que reproduziu a cobertura da Agência Brasil, Moraes determinou na sexta-feira (23/10):
- bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens móveis e imóveis, incluindo aviões e embarcações;
- quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial;
- suspensão dos passaportes;
- paralisação das atividades econômicas, financeiras e empresariais das empresas ligadas a ele;
- comunicação ao Coaf, ao Banco Central e à CVM para dar efeito ao bloqueio, e ordem para que instituições financeiras entreguem dados, inclusive sobre a Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal.
A Itatiaia informa que a PF apura suspeita de lavagem de dinheiro em operações com casas de apostas (bets). Ainda segundo a reportagem, as medidas vieram depois que a PF constatou que ele viajou a Miami, nos Estados Unidos, após ser alvo de busca e apreensão em agosto. O Metrópoles, ao tratar do caso, afirma que o bloqueio inclui cancelamento dos passaportes, inclusive um diplomático, e que Tomaz saiu do país em agosto e não havia retornado até a publicação. Já o SBT News disse, em 23/10, que ele está em Miami e que a PF monitora a localização.
A fase de agosto da Operação Sem Desconto
A Operação Sem Desconto apura fraudes em descontos associativos aplicados a aposentadorias e benefícios do INSS. Em 4 de agosto de 2026, uma nova fase cumpriu 18 mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF, no Distrito Federal e no Maranhão, para investigar suposta lavagem de dinheiro, segundo a CNN Brasil. Os alvos incluíram familiares do senador Weverton Rocha (PDT-MA), e Tomaz também foi citado. A CNN registrou que a PF encontrou uma máquina de contar dinheiro durante a operação.
De acordo com o ND Mais, a PF o descreve como "hub financeiro, patrimonial e logístico" de políticos, com suposta atuação na lavagem de dinheiro para Weverton Rocha. O senador não respondeu à CNN.
Inquérito sobre Flávio Bolsonaro
Em 10 de outubro, a CNN Brasil informou, com base em fontes policiais e em apuração inicial do UOL, que a PF investiga se Flávio Bolsonaro compartilhava uma conta bancária com Tomaz. A pista veio de troca de e-mails entre um banco e o escritório do advogado, encontrada na busca de agosto; uma das mensagens pedia que Flávio fosse retirado de conta ligada a empresa de Tomaz.
Conforme o Brasil 247, que cita a CNN, a PF abriu inquérito para apurar possíveis crimes financeiros envolvendo Flávio e Tomaz. O caso foi distribuído ao STF na sexta-feira (16/10), com relatoria de Moraes, e está com o núcleo da PF que combate lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A PF também examina movimentações em plataforma de apostas que teriam chegado a R$ 35 milhões, saques em casas de apostas no exterior e um pregão da Loterj vencido pela empresa Pixs, sobre o qual há suspeita de "facilitação dos interesses da empresa". Segundo a reportagem, esses indícios ainda precisam ser investigados.
Flávio também é alvo de um procedimento separado no STF sobre o filme "Dark Horse", para verificar se houve lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Imóveis em Angra dos Reis
Em 4 de novembro, a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) suspendeu temporariamente, no sistema SIAPA, o cadastro e a transferência de imóveis de Tomaz em Ilha Comprida, Angra dos Reis (RJ), segundo o Metrópoles. A medida atendeu a representação da deputada Tabata Amaral (PSB), que apontou que a autorização de transferência da empresa WT S.A. saiu em cerca de 1h40, em 11/07/2022, enquanto pedido de 2021 do jogador Richarlison não foi concluído. Um dos imóveis, avaliado em cerca de R$ 10 milhões, é disputado com o atleta.
O que dizem os citados
- Willer Tomaz: sobre a conta, disse que a informação não é verdadeira e que entre ele e Flávio "há apenas amizade, sem relação comercial ou financeira" (CNN Brasil). Ao SBT News, afirmou que as insinuações são falsas. Sobre a fase de agosto, afirmou que a busca decorreu de ser dono de aeronave usada por Weverton Rocha em viagem particular, que não é investigado na operação e que não tem vínculo com o esquema de fraudes do INSS. Sobre os imóveis, a defesa diz que o processo de 2022 durou 62 dias (de 11/05 a 12/07) e que as "duas horas" se referem só ao último ato. A defesa também contestou as medidas de Moraes, segundo o resultado de busca consultado, mas as reportagens lidas não detalham os argumentos.
- Flávio Bolsonaro: a assessoria negou a existência de conta conjunta, e o senador disse ter apenas laços pessoais com Tomaz, sem relação comercial (Itatiaia).
Cabe recurso contra as decisões de Moraes. As reportagens lidas não trazem a posição de Weverton Rocha sobre as acusações da PF.
O que vem a seguir
O inquérito segue sob relatoria de Moraes, com análise dos dados bancários que as instituições devem entregar. A permanência de Tomaz nos EUA e a eventual resposta jurídica da defesa ao bloqueio são os próximos pontos a acompanhar.
Análise
Bloqueios de bens na casa dos bilhões, paralisação de empresas e cancelamento de passaporte antes de qualquer condenação são o tipo de medida que exige, na tradição do Estado de Direito, fundamentação rigorosa e controle posterior. A presunção de inocência não é cortesia a amigos de políticos: é o que protege qualquer cidadão quando o poder estatal decide apreender a propriedade. Se há fraude contra aposentados e lavagem de dinheiro, a resposta correta é prova, defesa e julgamento, não vazamentos que alimentam a disputa eleitoral.
O caso também mostra o custo da proximidade entre dinheiro privado e poder político. Quando empresários cedem aviões, imóveis ou contas a candidatos, a suspeita de favorecimento surge, seja o beneficiário do PL ou do PDT. A pergunta sobre a transferência de imóveis da União em duas horas ou sobre o pregão da Loterj é a mesma que a escola austríaca faz há décadas: onde o Estado concede licença, autorização e contrato, nasce a disputa por influência. Hayek chamava a atenção para o problema do conhecimento; quanto mais decisões dependem de burocratas, maior o espaço para a troca de favores.
Por fim, os fatos pedem simetria: o mesmo rigor com as acusações contra Tomaz, contra Flávio Bolsonaro e contra Weverton Rocha, e o mesmo cuidado para que a investigação não vire instrumento de campanha. Quem sofreu o desconto indevido, os aposentados do INSS, é quem mais precisa de um processo que termine em responsabilização individual e ressarcimento, e não em um espetáculo.



