O risco-país brasileiro, medido pelo Credit Default Swap (CDS) de 5 anos, subiu 26% nesta segunda-feira (26), para 151,7 pontos. Na sexta-feira (23), o indicador estava em 120,2 pontos. É o maior patamar desde junho de 2025, segundo Terra, Estadão e Money Times, que apontam a reprecificação dos ativos brasileiros depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno de domingo (25).

O que é o CDS e por que ele subiu

O CDS é um derivativo que funciona como seguro contra calote na dívida soberana e é usado como termômetro do risco-país por investidores estrangeiros. Depois do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro (PL) à frente, o indicador chegou a cair abaixo de 108 pontos, o menor nível em seis anos. Em seguida voltou a subir, com pesquisas mostrando empate técnico, mas sem que os preços embutissem uma vitória de Lula, segundo o gestor de um fundo de emergentes em Nova York ouvido pelo Estadão e pelo Money Times.

O consultor André Bobek, da Mhydas, citado pelo Terra, afirmou que o mercado já olhava com preocupação a trajetória das contas públicas e o crescimento da dívida, e que a confirmação da reeleição "altera essa perspectiva" e tende a provocar correção expressiva no curto prazo, já que parte dos investidores estava posicionada para outro resultado.

O cenário do Morgan Stanley

Estrategistas do Morgan Stanley estimam, em relatório, que o CDS pode subir mais 40 pontos e o dólar pode chegar a R$ 6,00 se as pressões fiscais se intensificarem. O banco avalia que o risco fiscal em alta ameaça ações, moeda e títulos da dívida do país.

O Money Times, que detalhou o relatório, assinado por Ioana Zamfir e Sofia Palacios, diz que esse não é o cenário-base do banco. A base é de dólar entre R$ 5,60 e R$ 5,70, com alta de cerca de 100 pontos-base nas taxas locais. O fator decisivo, segundo o relatório, são sinalizações de ajuste nas contas públicas nas próximas semanas; sem elas, investidores podem passar a incorporar o risco de dominância fiscal, em que a inflação responde mais à política fiscal do que à monetária. Segundo o banco, os ativos brasileiros precificaram dominância fiscal apenas duas vezes nos últimos 20 anos.

Os números do dia

  • Bolsa: a B3 acionou o circuit breaker na abertura, a primeira vez desde a pandemia. O Terra registra queda de até 17% no Ibovespa futuro pela manhã; o Money Times fala em queda de quase 15%.
  • Dólar: há divergência entre as fontes. O Terra diz que a moeda chegou a R$ 5,90 por volta das 9h40 e estava em R$ 5,52 às 10h53. O Money Times, citando o relatório do banco, registra máxima intradiária de R$ 5,6049 (+12,25%). As cotações mudam ao longo do dia e devem ser conferidas no fechamento.
  • EWZ: o ETF que acompanha ações brasileiras nos EUA caiu cerca de 20% após o fechamento regular de domingo, segundo o Terra.
  • Dívida: a Capital Economics projeta dívida pública rumo a 95% do PIB e freio nos cortes da Selic, segundo o Money Times.

Veja também a cobertura da abertura com circuit breaker e o desafio fiscal do próximo mandato.

Análise

Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.

O salto do CDS mede preço, não torcida: investidores cobram mais para segurar a dívida de um país quando duvidam de que as contas fecham. O próprio Morgan Stanley condiciona o pior cenário à ausência de sinais de ajuste, o que mostra que o caminho de volta passa por metas fiscais críveis, controle de despesas obrigatórias e respeito à autonomia do Banco Central, e não por discurso. O custo de um risco-país alto recai sobre todos, em juros mais altos para o Tesouro, para empresas e para famílias que tomam crédito. A régua vale para qualquer governo, de qualquer partido: quem gasta mais do que arrecada acaba cobrado em juros e em câmbio. As primeiras escolhas do novo governo para a Fazenda e a transparência sobre as contas serão os sinais a observar.