O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno de 25 de outubro, voltou a afirmar que a eleição foi fraudada. Em entrevista de 75 minutos ao jornal norte-americano The New York Times, publicada em 5 de novembro e feita em Miami, ele disse que a vitória de Lula foi "matematicamente impossível". Não apresentou provas, segundo as reportagens consultadas. O jornal classificou as alegações como "infundadas" e "já desmentidas", e o próprio PL, partido dele, aceitou o resultado.
O que Flávio disse na entrevista
Conduzida pela correspondente Ana Ionova, a conversa tratou de três temas principais: a contestação da eleição, a saída do Brasil e o futuro político do senador.
- Fraude: repetiu a tese de que o resultado teria sido manipulado e citou falhas de segurança na sala em que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) totaliza os votos. Reclamou também da prorrogação do horário de votação.
- Fuga: recusou-se a explicar como chegou aos Estados Unidos. "Como eu cheguei aqui, vou levar isso para o túmulo", afirmou. Disse ter organizado tudo sozinho, "sem ajuda de nenhum governo".
- Justiça: disse acreditar que o desfecho será a própria prisão e chamou o Judiciário de "politizado".
- Futuro: afirmou que será candidato de novo se houver novas eleições, que pretende contestar o resultado na Justiça, mesmo reconhecendo chance pequena de sucesso, e que defenderá anistia ao pai, Jair Bolsonaro, e aos condenados pelo 8 de janeiro.
O que dizem os números e o TSE
Os dados do TSE, reproduzidos pela Itatiaia a partir de reportagem da CNN Brasil, mostram Lula com 64.256.232 votos (51,79% dos válidos) contra 59.826.041 de Flávio (48,21%), diferença de cerca de 4,4 milhões de votos.
O principal argumento de Flávio é a prorrogação da votação por duas horas no segundo turno. Segundo o TSE, cerca de 34 mil votos (34.393, pelos números citados pela Itatiaia) foram registrados depois das 17h. O volume é inferior a 1% da diferença final. A checagem do Aos Fatos, de 26 de outubro, lembra ainda que a campanha do PL também pediu ao TSE a extensão do horário em várias cidades, entre elas São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Poços de Caldas.
Sobre a "sala-cofre", o TSE respondeu que o espaço não é aberto ao público e que dois fiscais do PL estiveram na Sala de Totalização e na Sala dos Partidos Políticos, com imagens que comprovariam o acesso. Cada urna imprime um boletim que pode ser comparado com o resultado oficial. O presidente do tribunal, ministro Kassio Nunes Marques, disse em nota que a eleição transcorreu "dentro da mais absoluta normalidade" e que questionamentos seguirão o devido processo legal. O TSE afirma ainda que qualquer cidadão pode auditar os resultados pelos Boletins de Urna e pelo Registro Digital do Voto.
Reação dentro da direita
O PL aceitou o resultado. Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, disse que não há como afirmar fraude sem provas. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) pediu respeito às urnas. União Brasil, Republicanos, Podemos e MDB, que apoiaram Flávio no segundo turno, reconheceram a vitória de Lula.
Investigação e viagem aos EUA
Flávio responde a inquérito por suspeita de lavagem de dinheiro e corrupção sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal. Ele não foi denunciado e nega irregularidades. Moraes determinou a entrega de seus passaportes, e o senador deixou o país no fim de outubro, passando por Argentina e Equador antes de chegar a Miami, segundo o relato do jornal.
Autoridades norte-americanas ouvidas pelo NYT contradizem a versão do senador: afirmam que um integrante da Casa Branca providenciou o jato e que o presidente Donald Trump autorizou a entrada. Trump disse apenas que a eleição pareceu "estranha", e os Estados Unidos ainda não reconheceram o resultado, ao contrário de dezenas de países. A defesa de Flávio não havia se manifestado sobre o inquérito nas reportagens consultadas até a publicação. O gabinete dele também não respondeu ao Aos Fatos sobre a checagem das alegações de fraude.
Qual o próximo passo
O mandato de senador de Flávio vai até o início de 2027, quando ele perde o foro e a imunidade parlamentar. Até lá, a eventual contestação judicial do resultado dependerá de ação formal, que as reportagens consultadas não detalham. A Brasil de Fato, veículo de linha editorial alinhada à esquerda, afirma que o NYT "minimiza" a entrevista, enquanto aliados do senador apresentaram o encontro como um grande evento. Parte do material citado vem de relatos de veículos brasileiros sobre o texto do jornal americano, não do original.
Análise
Alegar fraude exige prova, e a prova aqui é de fácil acesso: boletins de urna impressos, registros digitais e fiscais de partido que podem ser conferidos. Na tradição liberal, o Estado de Direito se defende com procedimentos verificáveis e instâncias que decidem, e quem contesta um resultado deve levar o caso a elas, com documentos. Dizer que o resultado é "matematicamente impossível" sem mostrar a conta enfraquece a própria tese e a confiança no processo, de que depende a legitimidade de qualquer governo, de qualquer lado.
A mesma régua vale para as instituições. O princípio da não agressão e a presunção de inocência valem para o senador investigado, que não foi denunciado. Medidas como a retenção de passaportes devem ser proporcionais e ter fundamentação pública clara. Hayek advertia que o poder discricionário é o maior risco quando as regras deixam de ser gerais e previsíveis, o que vale tanto para decisões judiciais quanto para campanhas que tratam derrota como ilegitimidade.
Há ainda um ponto de segurança jurídica. O mercado e o cidadão comum decidem a longo prazo com base na previsibilidade das regras e na aceitação do resultado das urnas. Quando líderes políticos apostam em contestações sem provas, o custo recai sobre quem produz e investe: mais incerteza, prêmio de risco maior e disputa permanente pelo poder do Estado. É o que Bastiat chamaria de efeito que não se vê. Reduzir o tamanho do que está em jogo em cada eleição, com menos Estado, é o antídoto mais duradouro contra a disputa por ele.



