O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central conclui nesta quarta-feira (4) a penúltima reunião do ano e anuncia, no início da noite, o que fará com a taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano. Até o fechamento desta reportagem, o resultado não havia sido divulgado nas fontes consultadas; o texto abaixo trata do que estava em jogo e do que o mercado esperava. O comunicado oficial está no site do Banco Central.

O que o mercado esperava

As pesquisas divergem, o que mostra o tamanho da incerteza. Na sondagem do Valor, divulgada na terça-feira (3), 72 das 105 casas ouvidas esperavam a manutenção da Selic em 13,75%, e 33 projetavam ao menos mais um corte de 0,25 ponto percentual. Já entre 75 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, 39 previam novo corte, para 13,50%, e 36 apostavam na manutenção, segundo a CNN Brasil. O G1 cita o Itaú BBA, que esperava manutenção em 13,75% e decisão unânime. A Agência Brasil, apoiada no boletim Focus, ainda informava a expectativa de corte para 13,5% nesta reunião, com a aposta de manutenção deslocada para dezembro.

A taxa ficou em 15% de junho de 2025 a março deste ano, o maior nível em quase 20 anos, e o ciclo de cortes começou em março, segundo a Agência Brasil.

Por que a pausa ganhou força

A mudança de humor veio depois do segundo turno da eleição presidencial. O G1 relata que o Ibovespa fechou a semana de 30 de outubro com queda de 18,12%, a quinta maior desvalorização semanal desde o início do Plano Real, e que as empresas listadas perderam R$ 963 bilhões em valor de mercado, de acordo com a Elos Ayta. O dólar, que estava abaixo de R$ 5 antes da votação, chegou a R$ 5,4872 na terça-feira (3), o nível mais alto desde 30 de dezembro de 2025, conforme o Money Times. Nesta quarta, a moeda fechou em queda de 0,64%, a R$ 5,4511, na cobertura da CNN Brasil, que atribuiu o movimento ao resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

O Valor aponta três fatores que reduzem o espaço para cortes: a desvalorização cambial, o aumento dos prêmios de risco e a piora das expectativas de inflação. O Itaú BBA acrescenta o petróleo mais caro e juros altos nas economias desenvolvidas. O mercado também reage a especulações sobre uma política econômica mais heterodoxa no novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo o Valor.

Inflação e metas

A prévia da inflação oficial, o IPCA-15, caiu pela metade em outubro e ficou em 0,32%, mas o acumulado em 12 meses subiu de 4,5% para 4,62%, acima do teto da meta, de acordo com a Agência Brasil. A meta é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo (de 1,5% a 4,5%). O boletim Focus indica inflação de 5,22% para 2026, contra 5,19% na semana anterior.

O principal termômetro da reunião será a projeção do próprio Copom para a inflação do segundo trimestre de 2028, que passa a ser o horizonte relevante da política monetária. Simulações de XP e Santander apontam 3,5%; o Itaú estimava 3,4%. Na reunião anterior, a projeção divulgada era de 3,2% para o primeiro trimestre de 2028. O Valor ressalva que as simulações usam câmbio próximo de R$ 5,20, abaixo das cotações recentes.

O que observar no comunicado

Analistas esperam ver como o Copom descreverá o cenário externo, que o Itaú prevê passar de "incerto" para "adverso". Não há grande expectativa de retorno do "forward guidance" (indicação sobre o futuro da taxa). O Santander espera uma pausa sem compromisso com a retomada dos cortes nem com o fim do ciclo; o Itaú prevê um comunicado de interrupção, com reforço de cautela.

Pressão política e diretoria incompleta

O Valor registra que cresceu a pressão política para que os cortes continuem. A Agência Brasil lembra que o colegiado está desfalcado: os mandatos dos diretores Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro) e Diogo Guillen (Política Econômica) expiraram no fim de 2025, e o presidente Lula não havia enviado ao Senado as indicações dos substitutos.

O que muda para o leitor

A Selic é referência para financiamentos, cartão, empréstimos e para a remuneração de títulos públicos e da renda fixa. Como explica a Agência Brasil, os bancos também consideram risco de inadimplência, lucro e despesas ao definir os juros cobrados do consumidor, de modo que uma variação de 0,25 ponto na Selic não se repassa de forma automática. O próximo encontro do Copom é em dezembro.

Análise

A pausa que o mercado precifica não é capricho de diretor de banco central: é o preço cobrado por um Estado que gasta mais do que arrecada. Os números do G1 mostram o tamanho disso: nos 12 meses até setembro, o setor público pagou R$ 1,205 trilhão em juros contra um déficit primário de R$ 70,1 bilhões, e a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, contra 71,7% em dezembro de 2022. Quando o próprio governo é o maior tomador de crédito da economia, o juro de equilíbrio sobe para todos, inclusive para quem produz e investe.

Mises explicou que a taxa de juros é o preço do tempo e da poupança; quando se tenta rebaixá-la por decreto ou por pressão política, em vez de deixá-la refletir a poupança real, sinaliza-se uma abundância que não existe. A teoria austríaca dos ciclos, de Mises e Hayek, descreve o resultado: investimentos que só parecem viáveis com crédito artificialmente barato e uma correção dolorosa depois. Pedir ao Banco Central que corte juros enquanto a dívida cresce e o câmbio se deprecia é tratar o termômetro como causa da febre.

Há também o que Bastiat chamaria de "o que se vê e o que não se vê". Vê-se o alívio de curto prazo de uma Selic menor; não se vê o custo da desconfiança, que aparece em dólar mais caro, alimentos e combustíveis mais caros e prêmio de risco maior sobre a dívida. Quem sente primeiro essa conta é o assalariado, cuja renda perde poder de compra, e não o governo que a gerou.

A saída duradoura não está na sala do Copom, e sim no Orçamento: despesa que caiba na arrecadação, regras fiscais que sejam cumpridas e respeito à autonomia do Banco Central, sem tentativa de moldar a diretoria à vontade do governo de turno. Vale o mesmo critério para qualquer partido: aumento de gasto financiado por dívida ou imposto é transferência de renda do pagador para o Estado, venha de quem vier.