O Itaú Unibanco divulgou na noite de terça-feira (3), depois do fechamento do mercado, o balanço do terceiro trimestre de 2026 (3T26). O lucro líquido recorrente gerencial foi de R$ 12,6 bilhões, e o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) anualizado ficou em 23,6%, segundo os veículos que cobriram o balanço. O resultado ficou em linha com as projeções de analistas.
Lucro: os números e a divergência entre as fontes
O Valor Econômico informa lucro recorrente de R$ 12,617 bilhões entre julho e setembro, alta de 1,7% sobre o segundo trimestre e de 6,2% sobre o terceiro trimestre de 2025, ligeiramente acima da projeção de R$ 12,506 bilhões. O InfoMoney também fala em alta de 6,2% e cita consenso de R$ 12,6 bilhões compilado pela Reuters.
Outros veículos trazem percentuais diferentes para o mesmo lucro. O Brazil Journal registra alta de 1,7% no trimestre e de 6,7% em um ano, e acrescenta que, sem os impactos fiscais da venda da operação de varejo na Colômbia, em julho, o crescimento trimestral seria de 2,5%. O Money Times fala em 6,7% sobre um ano antes e 2,5% sobre o trimestre anterior. As divergências aparentemente decorrem de bases de comparação diferentes (com e sem efeitos extraordinários); os balanços e os veículos não detalham tudo isso nas reportagens consultadas.
O banco citou itens extraordinários, líquidos de efeitos fiscais, como R$ 291 milhões com a reestruturação do varejo do Itaú Colômbia e R$ 133 milhões em amortização de ágio. Além disso, revisou a projeção (guidance) para a alíquota efetiva de impostos de 2026 para a faixa de 28% a 29%, ante 29,5% a 32,5% anteriormente.
Rentabilidade: ROE de 23,6%
O ROE consolidado ficou em 23,6%, queda de 0,7 ponto percentual frente ao segundo trimestre (24,3%) e alta de 0,3 ponto percentual sobre um ano antes (23,3%). Na operação Brasil, o indicador foi de 24,5%, segundo o Brazil Journal. Para comparação, o Money Times informa que o Santander Brasil fechou o trimestre com ROE de 11,9% e o Bradesco, com 16,1%.
Crédito, margem e inadimplência
- Carteira de crédito: R$ 1,544 trilhão em setembro. O Valor registra alta de 1,8% no trimestre e 10,4% em 12 meses; o InfoMoney e o Brazil Journal falam em 10,2% em 12 meses (consolidado) e 10,9% no Brasil. Sem a carteira de varejo da Colômbia, vendida em julho, o Valor calcula 2,2% no trimestre e 10,9% no ano.
- Segmentos: pessoas físicas no Brasil somaram R$ 500,4 bilhões (+2,7% no trimestre e +9,6% em 12 meses); micro, pequenas e médias empresas, R$ 320,4 bilhões (+4,2% e +15,1%); grandes empresas, R$ 479,4 bilhões (+1,0% e +9,5%).
- Motores do crescimento: crédito imobiliário (+4,4% no trimestre), consignado (+3,5%) e pequenas e médias empresas (+4,2%), esta última impulsionada por linhas de programas governamentais, segundo o banco.
- Margem financeira: R$ 34,6 bilhões, alta de 7,8% em 12 meses. A margem com clientes foi de cerca de R$ 33,3 bilhões e a com o mercado, de R$ 1,3 bilhão (+46,9% em 12 meses).
- Inadimplência acima de 90 dias: 2,0% em setembro, ante 1,9% em junho e 1,9% um ano antes. Na pessoa física no Brasil ficou em 3,7%; em micro, pequenas e médias empresas, 2,1% (2,0% em junho e 1,7% um ano antes). O banco atribuiu a alta nas empresas menores à normalização após o fim das carências de programas governamentais.
- Provisões e custo do crédito: a despesa com provisão para devedores duvidosos (PDD) foi de R$ 10,7 bilhões (+2,3% no trimestre, +9,6% no ano). O custo do crédito somou R$ 10,4 bilhões.
- Guidance mantido: crescimento da carteira de 5,5% a 9,5% e custo do crédito entre R$ 38,5 bilhões e R$ 43,5 bilhões em 2026.
Receitas de serviços, eficiência e capital
As receitas de prestação de serviços ficaram estáveis, em torno de R$ 11 bilhões. O Brazil Journal destaca que a receita com tarifas de conta corrente de pessoas físicas caiu 2,2% no trimestre e 16,9% no ano, em meio à concorrência. As receitas de assessoria financeira e corretagem recuaram 26,3% no trimestre, o que o diretor financeiro Gabriel Moura atribuiu a um mercado de capitais menos ativo.
O índice de eficiência foi de 37,5% (38,8% um ano antes) e o índice de capital principal, de 12,7% (13,5% um ano antes, mas 40 pontos-base acima do trimestre anterior, segundo o Brazil Journal). O banco encerrou o trimestre com 2.180 agências e postos de atendimento, ante 2.617 um ano antes e 2.210 em junho, e com mais de R$ 3,3 trilhões em ativos.
O que dizem o banco e os analistas
"A consistência dos nossos resultados reflete uma estratégia de longo prazo, sustentada pela disciplina na gestão, pela concessão responsável de crédito e pela qualidade da nossa carteira", afirmou o CEO Milton Maluhy Filho em nota. Segundo o Brazil Journal, analistas do Citi e de outras casas avaliaram que o banco está preparado para um cenário pior. O Valor observa que o balanço não trouxe indicação para 2027. Segundo o Brazil Journal, a ação acumula queda de 1,7% no ano e o banco vale R$ 449 bilhões na Bolsa; esses números são apenas informativos e não constituem recomendação.
Na quarta-feira (4), o CEO falou sobre o cenário macroeconômico em coletiva, tema de outra reportagem do Tendência News.
Análise
Os números do Itaú mostram um banco rentável num ambiente de juros altos, e a rentabilidade vem em boa parte de uma gestão disciplinada de risco, não de privilégio. Mas há um dado que merece atenção: o crescimento de 15,1% em 12 meses na carteira de pequenas e médias empresas foi, nas palavras do próprio banco, impulsionado por linhas de programas governamentais, e foi justamente nesse segmento que a inadimplência subiu, de 1,7% para 2,1%, com o fim das carências.
É o que Frédéric Bastiat chamaria de "o que se vê e o que não se vê". O que se vê é o crédito subsidiado que chegou ao pequeno empresário; o que não se vê é o risco que foi empurrado para o futuro e a alocação de capital que o mercado, guiado por preços e juros livres, talvez fizesse de outra forma. Na teoria austríaca dos ciclos, de Mises e Hayek, o crédito direcionado e artificialmente barato distorce o cálculo econômico e cobra a conta depois, em inadimplência e perda de capital.
Também chama a atenção a queda de 16,9% na receita de tarifas da pessoa física em um ano, resultado de concorrência entre bancos e fintechs. É um exemplo de como a competição, e não a regulação de preços, devolve valor ao consumidor. Quanto mais aberto o mercado ao ingresso de novos concorrentes e menor o custo regulatório, maior a pressão para que isso continue acontecendo.



