O CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, afirmou na coletiva de imprensa sobre os resultados do terceiro trimestre de 2026, realizada na quarta-feira (4), que "o mercado não tem partido, ele olha para propostas concretas". Segundo o InfoMoney, o executivo comentou o cenário macroeconômico brasileiro, os juros e a inflação, e disse que as condições para 2027 são piores do que as atuais.

O banco havia divulgado na noite de terça-feira (3) lucro recorrente gerencial de R$ 12,6 bilhões e ROE de 23,6% no trimestre, em linha com as projeções (detalhes na reportagem sobre o balanço).

Incerteza, previsibilidade e o novo mandato

De acordo com o InfoMoney, Maluhy Filho disse que há muita incerteza no momento e que isso deixa os investidores mais cautelosos com seus portfólios. Para o executivo, maior definição e previsibilidade poderiam fazer o mercado de capitais, hoje mais fechado, voltar a operar com mais intensidade.

A reportagem registra que, entre os objetivos que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia perseguir, o CEO citou em primeiro lugar a retomada do grau de investimento. Ele defendeu que o ponto central da economia seja perseguir o fiscal e o social "de mãos dadas", porque a volatilidade e a desvalorização do câmbio podem aumentar a inflação.

Inflação, juros e crédito

"O mercado todo já refaz suas projeções para inflação, para bem distante do centro da meta", afirmou o CEO. Ele citou a mudança na jornada de trabalho e o combustível como pontos que já elevariam a inflação, segundo a reportagem.

Sobre os juros, Maluhy Filho disse que devem continuar em patamar restritivo por tempo prolongado e que a inflação é "um imposto regressivo para as famílias porque consome o poder de compra". Em sua avaliação, é do interesse de todos que a inflação fique baixa e controlada, e os juros são a medida para isso. O dia da coletiva coincidiu com a decisão do Copom sobre a taxa básica, que estava na pauta dos mercados, segundo o InfoMoney e o Investing.com Brasil (a decisão não é objeto desta reportagem).

Custos, carteira e o banco em 2027

O executivo afirmou que o Itaú está preparado para os desafios do próximo ano, mas reconheceu: "Quando olhamos o cenário para 2027, as condições são piores". Sobre a qualidade do crédito, disse: "Não somos imunes, temos uma carteira de R$ 1,5 trilhão no Brasil, mas um portfólio focado em clientes mais resilientes, com produtos compatíveis no varejo".

Em despesas, disse que não há uma alavanca única, mas um programa amplo de eficiência baseado em "priorização, renúncias, tecnologia e transformação". "O exercício que só depende da gente em um cenário macro desafiador é o custo. Vamos continuar perseguindo a disciplina", afirmou.

Os números por trás da fala

O balanço mostrou carteira de R$ 1,544 trilhão, inadimplência acima de 90 dias de 2,0% (1,9% em junho), crescimento do crédito imobiliário e do consignado e queda de 16,9% nas receitas de tarifas de pessoa física em 12 meses, segundo Valor, InfoMoney e Brazil Journal. O Valor observou que o balanço não trouxe indicação sobre 2027.

Análise

A fala do CEO traz uma frase que merece ser levada a sério: a inflação é um imposto regressivo. É uma ideia que Mises e Rothbard já formulavam: a inflação é fruto da expansão monetária e do crédito, funciona como transferência silenciosa de renda de quem usa a moeda mais tarde para quem a recebe primeiro, e pesa mais sobre quem tem menos meios de se proteger. Quando o mercado "refaz projeções para bem distante do centro da meta", ele está reagindo ao que o Estado fez ou promete fazer com gasto, jornada e preços de combustíveis.

Maluhy Filho pede que o fiscal e o social caminhem "de mãos dadas". O problema é que, na prática, o social tem sido financiado por gasto crescente, e o fiscal acaba pago por imposto ou inflação. Do ponto de vista da propriedade privada e da responsabilidade individual, a ordem importa: sem regra fiscal crível e despesa contida, o juro alto é consequência, não causa. Culpar o juro é combater o termômetro.

A mudança por lei da jornada de trabalho, citada pelo executivo como pressão inflacionária, ilustra o problema do conhecimento de Hayek: nenhum legislador sabe a combinação de horas que serve a cada setor, empresa e trabalhador; contratos livres a descobrem melhor. Impor o número por decreto eleva custos, que chegam ao preço final. Vale o mesmo critério para qualquer governo: previsibilidade e segurança jurídica são o que o próprio CEO diz que o mercado procura.