O agente da Polícia Federal Jorge Chastalo Filho lança o livro Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula, publicado pela WMF Martins Fontes. A obra tem 592 páginas e, segundo reportagens publicadas em 3 de novembro de 2026, reconstitui em ordem cronológica o período em que o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou custodiado na Superintendência da PF em Curitiba, a partir de abril de 2018. As reportagens consultadas não informam data nem local de um evento de lançamento.
Quem é o autor
Chastalo atuou na custódia de Lula na carceragem da PF paranaense. Ficou conhecido na imprensa como "Rodrigo Hilbert da Federal", apelido ligado à semelhança com o ator, segundo o Brasil 247 e o Diário do Centro do Mundo. O Diário do Centro do Mundo relata que ele passou a ter uma relação de amizade com o preso, que Lula telefonou a ele durante a eleição de 2022 para agradecer uma manifestação de apoio e que, depois da soltura, o ex-presidente deu aval para que escrevesse "sem censura".
Segundo a Gazeta do Povo, o projeto foi articulado depois que o jornalista Juca Kfouri conheceu o agente numa visita a Lula, em abril de 2019. A edição ficou com Lino Bocchini. O Brasil 247, que cita publicação original da Folha de S.Paulo, informa que o texto original foi enxugado para retirar trechos irrelevantes e linguagem policial.
Por que o lançamento só veio agora
De acordo com as reportagens, a editora adiou a publicação até o fim do processo eleitoral para que o livro não fosse usado como "peça política ou instrumento de campanha". Em dezembro de 2023, o Diário do Centro do Mundo já noticiava que o livro seria adaptado para o cinema, em projeto da produtora Condé+ com o diretor Juliano Dornelles ("Bacurau") e o roteirista Felipe Braga ("Marighella"), então em fase inicial.
O que o livro relata
Com base nas reportagens do Correio Braziliense, da Gazeta do Povo e do Brasil 247, entre os episódios narrados estão:
- A transferência. O traslado de helicóptero até a sede da PF, de cerca de 15 minutos, exigiu três dias de planejamento e quatro planos operacionais, segundo a Gazeta do Povo. Durante o voo, a fonia de rádio captou hostilidades à comitiva, com frases como "não o soltem nunca mais" e "joguem esse lixo pela janela". O piloto pediu que as comunicações se limitassem ao essencial, e a torre avisou que tudo era gravado.
- A expectativa da equipe. Chastalo escreve: "Naqueles dias, não acreditávamos que Lula realmente seria preso". Sobre o estado do preso ao chegar, diz: "Me senti constrangido com a situação".
- A cela e o banho de sol. A cela tinha cama de solteiro, mesa de alumínio, cadeira e armário, com janelas gradeadas. No quarto dia, no primeiro banho de sol, num pátio cercado por paredes de cerca de dois metros, Lula teria comparado o espaço a uma jaula.
- Cuidados com a comida. No segundo dia, o agente passou a encomendar refeições de fora por temer que alguém tentasse envenenar o preso. Segundo o Correio Braziliense, o motivo não foi a qualidade da comida da PF.
- Família. Lula pediu uma bola para brincar com o neto Arthur, então com sete anos, que morreu em abril de 2019; o ex-presidente foi autorizado a ir ao sepultamento. O pedido para ir ao velório do irmão, Vavá, foi negado por falta de tempo hábil.
- Conversas. O autor afirma que os diálogos "quase sempre foram sobre política" e que "são poucas as confissões que guardei". Nas passagens divulgadas, Lula critica a Operação Lava Jato e, sobre a ministra Marina Silva, diz que ela havia ficado "muito carola". O Brasil 247 também cita um episódio do passaporte de um assessor, em que Lula teria dito que "tem adulto que parece criança".
Todas as passagens acima são do relato do autor, divulgado pelos veículos, e não foram verificadas de forma independente.
Contexto: o caso Lula e a Lava Jato
Lula ficou preso por 580 dias, até novembro de 2019, quando o Supremo Tribunal Federal decidiu que ninguém poderia ser preso antes de esgotados os recursos. Em abril de 2021, o STF anulou as condenações dos casos do triplex e do sítio de Atibaia, por entender que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era o juízo competente, conforme resumiu o Correio Braziliense. A anulação foi por questão de competência, e não um julgamento do mérito das acusações. Os veículos que apoiam o ex-presidente e os que criticam a Lava Jato tratam a prisão como injusta; a Gazeta do Povo e o Correio Braziliense não adotam esse enquadramento nas matérias consultadas, que se limitam a relatar o conteúdo do livro.
Reações
Nas reportagens consultadas até a publicação deste texto, não havia manifestação da Polícia Federal sobre o livro nem críticas de terceiros, como integrantes da antiga força-tarefa da Lava Jato ou de críticos do governo. O Tendência News atualizará o texto se houver posicionamentos.
Análise
O livro é um testemunho de quem tinha o dever funcional de zelar por um preso, e isso levanta uma questão que vai além da política: o que um agente do Estado pode tornar público sobre pessoas sob sua guarda? Num Estado de Direito, o poder de prender é o mais grave que o Estado detém, e é por isso que o dever de sigilo e a impessoalidade do servidor importam. Quando o relato vem de alguém que declarou apoio ao custodiado, o leitor deve ler com a cautela devida a qualquer testemunho de parte interessada, sobretudo porque a versão não passa pelo contraditório.
A própria cautela da editora, que segurou o livro até o fim da eleição, mostra o quanto a disputa política contamina até a leitura de episódios da história recente. Os fatos centrais, porém, são verificáveis e independem de simpatias: Lula foi preso após condenação em segunda instância, e a jurisprudência do STF mudou em 2019; as condenações foram anuladas por vício de competência em 2021. Segurança jurídica exige que as regras do jogo sejam claras e valham igualmente para todos, sem oscilar conforme o personagem ou o momento político. A oscilação de entendimentos sobre quando alguém pode ser preso é, ela própria, um custo para a confiança nas instituições.
Para a tradição liberal de Hayek, o Estado de Direito pressupõe normas gerais e previsíveis, aplicadas sem favorecer nem perseguir ninguém. Vale para o ex-presidente preso e vale para quem o investigou e julgou: juízes e policiais devem ser cobrados pelos limites legais do que fazem, e a defesa precisa ser plena. Isso inclui o dever de transparência sobre erros de competência apontados pelo próprio Supremo. Um livro de memórias, por mais interessante, não substitui a discussão de fundo sobre como o poder de punir é exercido no país.



