Os eleitores latinos, que ajudaram a eleger Donald Trump em 2024, aparecem em pesquisas como um dos grupos que podem tirar do Partido Republicano o controle do Congresso americano nas eleições de meio de mandato desta terça-feira (3). Os números, as razões apontadas por analistas e o peso do grupo no Texas ajudam a entender por que a disputa é acompanhada de perto.
O que dizem as pesquisas
Segundo o g1, pesquisas indicam que os latinos devem votar em candidatos democratas duas vezes mais do que em republicanos. O New York Times projeta 61% de apoio latino aos democratas contra 31% aos republicanos. Em 2024, Trump havia conquistado uma parcela inédita de 44% dos votos latinos.
Uma pesquisa Times/Siena apontou que dois terços dos eleitores latinos confiam mais no Partido Democrata do que no Republicano tanto em imigração quanto em economia, tema que era um ponto forte do presidente. Os latinos são cerca de 13% da população total do país e, segundo o g1, a maior minoria étnica.
O instituto Pew Research, em pesquisa de outubro, mostrou que 54% dos eleitores que votaram em Trump em 2024 aprovam seu governo, contra 93% no início do mandato. Ainda segundo o Pew, 11% dos latinos que votaram em Trump em 2024 pretendem votar em um democrata para o Congresso, e 30% dos latinos eleitores dele dizem que ele foi longe demais no combate à imigração. O eleitorado latino que pretende votar em democratas aparece mais engajado: 53% contra 43% dos pró-republicanos.
No plano geral, a aprovação de Trump chegou a 31% na pesquisa Reuters/Ipsos, o menor índice de seus dois mandatos.
Os dois fatores apontados
O cientista político Maurício Santoro, ouvido pelo g1, aponta dois motivos principais. O primeiro é a política migratória, com operações do ICE (a polícia de imigração) e deportações em massa, que, na avaliação dele, feriram comunidades latinas, tenham os moradores situação regular ou não. O segundo é o custo de vida: para Santoro, as tarifas e o protecionismo acabaram agravando a inflação, o que afeta mais as comunidades de menor renda.
A Casa Branca e Trump defendem a política migratória. O presidente afirma publicamente que imigrantes ilegais são responsáveis por índices de criminalidade, tese que contrasta com um estudo coordenado pela Universidade da Califórnia, publicado em agosto, que analisou 11,5 mil bairros em mais de 100 cidades e encontrou queda de crimes violentos em comunidades com aumento de imigrantes sem documentos, segundo o g1.
Do lado econômico, a CNN Brasil lembra que o quadro é misto: desemprego de 4,2% em setembro, crescimento anualizado de 3,4% no último trimestre, mas inflação acima da meta de 2% do banco central e preços ao consumidor e salários médios por hora subindo cerca de 5,5% desde janeiro de 2025, o que significa poder de compra praticamente estável.
O caso do Texas
Os latinos compõem quase um terço do eleitorado texano, estado com uma das disputas mais apertadas pelo Senado. O democrata James Talarico aparece à frente do republicano Ken Paxton, 48,4% a 45,8% na média das cinco principais pesquisas de outubro, segundo o g1. Uma vitória seria a primeira de um democrata para o Senado pelo estado em quase 40 anos.
O Globo relata que o estado tem 45 mil voluntários democratas em campanha, que o redesenho dos distritos feito a pedido de Trump em agosto de 2025 deixou cinco cadeiras a mais com eleitorado majoritariamente conservador, e que estrategistas democratas dizem que o redesenho levou independentes de subúrbio para a oposição. Eleitores ouvidos pelo jornal em Austin citam batidas do ICE e custo de vida como motivações.
Abstenção é a incógnita
Santoro ressalta que a abstenção será decisiva, já que a eleição ocorre em dia útil e ambos os lados precisam mobilizar suas bases. Pesquisas medem intenção, não comparecimento, e a margem de erro em subgrupos como o eleitorado latino costuma ser maior que a das pesquisas nacionais.
Análise
O recado do eleitor latino, como descrito nas pesquisas, junta duas queixas que a tradição liberal costuma tratar com seriedade: tarifas que encarecem o que as famílias compram e uma máquina estatal de fiscalização que atinge também quem não cometeu crime. Bastiat ensinava a olhar o que não se vê: a tarifa protege um setor visível, mas o custo se espalha em preços mais altos para milhões de consumidores, e os mais pobres sentem mais. Tarifa é imposto, venha de quem vier.
Sobre imigração, a posição consistente com a propriedade e a liberdade individual distingue o que é controle legítimo de fronteira, com regras claras e devido processo, de ações que tratam comunidades inteiras como suspeitas. Atingir o trabalhador que contribui, produz e respeita a lei contraria o princípio da não agressão, e o Estado de Direito exige que a aplicação da lei seja previsível e proporcional.
Vale também notar que o eleitor latino não é um bloco: o mesmo grupo que se inclinou a Trump em 2024 se move agora por inflação e segurança jurídica, o que lembra que o eleitor julga resultados concretos no bolso, não rótulos partidários. Nenhum partido deveria presumir lealdade automática de ninguém.



