Os Estados Unidos votam nesta terça-feira (3) nas eleições de meio de mandato, e o controle do Senado é a disputa mais incerta da noite. Enquanto a Câmara dos Representantes aparece com vantagem democrata nas projeções, a Casa alta depende de um punhado de estados, entre eles Michigan, Texas e Alasca, onde a reta final foi marcada por racha partidário, ações judiciais e pesquisas apertadas.

O que está em jogo

Estão em disputa as 435 cadeiras da Câmara e 35 das 100 vagas do Senado, além de 39 governos de estados e territórios, segundo a BBC News Brasil. No Senado, os republicanos têm 53 cadeiras e os democratas 45, mais dois senadores independentes. Das 35 vagas em jogo, 22 são hoje de republicanos e 13 de democratas, e a oposição precisaria virar quatro cadeiras líquidas para chegar à maioria.

As projeções divergem em intensidade, mas apontam na mesma direção. O cenário-base do modelo próprio do BTG Pactual, citado pelo g1, prevê 51 cadeiras democratas contra 49 republicanas, com probabilidade de maioria democrata de 72% no modelo do banco e de 65% nas cotações do Polymarket, plataforma de apostas em eventos futuros. São estimativas de probabilidade, não resultados.

Michigan: apoio de rival interna agita a reta final

No domingo (1º), a deputada democrata Haley Stevens, derrotada nas primárias do partido em agosto, declarou apoio ao republicano Mike Rogers, candidato preferido de Trump, e não ao democrata Abdul El-Sayed, vencedor das primárias. Segundo a CNN Brasil, ela disse que o lugar dela "não é na campanha do Abdul" e apareceu ao lado de Rogers em uma igreja em Detroit. O gesto ocorreu no dia em que os dois fariam uma agenda conjunta de união partidária.

Segundo O Globo, Stevens afirmou que El-Sayed deixou claro que ela não era bem-vinda na campanha e exigiu que ele pedisse desculpas por comentários sobre Israel e condenasse um anúncio de um grupo externo sobre o custo de vida e a guerra em Gaza. El-Sayed disse que não concorda com o conteúdo do anúncio, mas não pediu desculpas, e afirmou que não pensa em Stevens e sim nos eleitores do estado. Vários integrantes do gabinete de Stevens se demitiram após o anúncio, e os líderes democratas na Câmara e no Senado reafirmaram o apoio a El-Sayed.

Trump, em comício em Iowa, convidou Stevens a se filiar ao Partido Republicano e disse que o apoio dela foi "uma atitude inteligente", porque El-Sayed "destruiria nosso país", conforme a CNN Brasil. Pela média de pesquisas do portal RealClearPolling, citada por O Globo, El-Sayed tinha vantagem de quase quatro pontos sobre Rogers, mas republicanos apostam que a reviravolta pode ajudá-los entre eleitores negros e judeus que apoiaram Stevens na primária.

Texas: cadeira democrata pela primeira vez em quase 40 anos

No Texas, o democrata James Talarico aparece de dois a seis pontos à frente do republicano Ken Paxton, secretário estadual de Justiça, segundo o g1. Na média das cinco principais pesquisas de outubro, o placar é de 48,4% a 45,8%, o que está dentro das margens de erro típicas de pesquisas estaduais. Se o cenário se confirmar, o estado teria um senador democrata pela primeira vez em quase 40 anos. O governador Greg Abbott, republicano, disputa a reeleição no mesmo dia.

Alasca: Justiça rejeita ação do governo Trump

Também no domingo, um juiz federal rejeitou a ação do Departamento de Justiça que pedia para impedir a certificação do resultado no Alasca caso o senador republicano Dan Sullivan perdesse por margem estreita. O governo argumentou que os eleitores poderiam ser confundidos pela presença na cédula de um candidato chamado Daniel J. Sullivan Jr. Segundo a CNN Brasil, o New York Times noticiou que a campanha da democrata Mary Peltola teria participado do recrutamento desse candidato; a campanha não havia se manifestado nas reportagens consultadas até a publicação.

O senador Sullivan disse que aceitaria o resultado da eleição. Já o governador republicano do Alasca, Mike Dunleavy, sugeriu que talvez não certifique uma vitória de Peltola, e Sullivan se recusou a dizer se apoiaria esforços para negar a certificação. O Globo informa que a candidata democrata aparece à frente nas sondagens.

O que muda conforme o resultado

Se os democratas conquistarem as duas Casas, terão controle da pauta e das comissões que fiscalizam o Executivo, além de maior influência sobre indicados de Trump, inclusive para o Federal Reserve e a Suprema Corte, segundo o g1. Se vencerem só na Câmara, poderão dificultar projetos e liberação de recursos, mas os republicanos manteriam o Senado e as nomeações, e Trump continuaria com o poder de veto.

Uma divergência de números vale registro: a aprovação de Trump aparece em 31% na pesquisa Reuters/Ipsos citada por BBC e g1, o pior índice de seus dois mandatos, enquanto outras compilações mencionam patamares diferentes. Cada instituto usa método próprio.

Análise

A disputa pelo Senado mostra o valor de um desenho institucional que dispersa o poder: duas Casas, mandatos de duração diferente, estados com autonomia sobre suas eleições e um Judiciário que, no caso do Alasca, barrou em vez de chancelar uma pretensão do Executivo. Hayek insistia que o Estado de Direito se mede justamente pela capacidade de limitar quem governa, seja qual for o partido. A rejeição judicial da ação do Departamento de Justiça é, desse ponto de vista, um sinal saudável de que a regra vale para todos.

O mesmo critério cobra coerência dos dois lados. Um governador que insinua não certificar um resultado antes da votação, ou um partido que recruta candidato homônimo para confundir eleitores, se for comprovado, enfraquecem a confiança nas regras do jogo, que é o ativo mais precioso de qualquer ordem política. Segurança jurídica não é privilégio de quem ganha; é o que permite ao perdedor aceitar a derrota.

Há ainda uma lição econômica. Mercados já precificam um Congresso dividido, e Mises lembrava que a incerteza sobre regras de gasto e de moeda é, ela própria, um custo para quem produz e investe. Um Legislativo que trava aumentos de despesa e tributos pode ser benéfico ao contribuinte; um impasse que paralisa o orçamento, não. O que importa para o cidadão é menos quem vence e mais se o poder continuará sujeito a freios.