O Irã afirmou nesta segunda-feira (2) que pode reabrir o Estreito de Ormuz em dois dias, desde que os Estados Unidos aceitem as condições apresentadas por Teerã. A declaração foi dada pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baqaei, segundo os veículos que cobriram a entrevista. Até o momento da apuração, não havia resposta oficial de Washington à nova oferta.
O que o Irã propôs
Segundo Baqaei, se as exigências forem atendidas, será possível "restaurar a segurança no Estreito de Ormuz" e retomar em pouco tempo as negociações para encerrar a guerra. Ele classificou as demandas como "razoáveis e lógicas" e disse que a decisão "está com os Estados Unidos". A troca de mensagens com Washington continua de forma indireta, por mediadores; o Catar facilita o contato, e uma delegação iraniana esteve em Doha no fim de semana.
O prazo de dois dias é menor que o de propostas anteriores. Em setembro, Teerã apresentou, por meio do Catar, um plano que previa a reabertura seis dias após uma resposta americana. Outras reportagens mencionaram sete dias.
As condições
A lista combina pedidos já feitos em setembro e presentes em um protocolo de acordo firmado em junho com itens novos:
- cessar-fogo regional, incluindo o Líbano, segundo o jornal português DN;
- liberação de ativos iranianos mantidos no exterior;
- fim das sanções ao setor petrolífero do país;
- fim do bloqueio americano aos portos e navios iranianos;
- aceitação, pelos EUA, do novo itinerário de trânsito de navios acordado entre Irã e Omã;
- redução da presença militar americana no Oriente Médio.
Os dois últimos pontos foram detalhados no domingo (1º) pelo chanceler Abbas Araghchi, em entrevista à Al Jazeera.
Como chegamos até aqui
A guerra começou em 28 de fevereiro de 2026, com ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o território iraniano. Desde então, o Irã mantém o Estreito de Ormuz bloqueado, reivindica o controle da rota, uma das principais para o transporte de petróleo e outros hidrocarbonetos, e ataca navios que passam sem sua autorização, segundo as reportagens.
Um primeiro cessar-fogo vigorou a partir de abril. Em junho foi alcançado um protocolo de acordo, mas a trégua foi interrompida pouco depois e os ataques foram retomados. As operações militares diminuíram desde setembro, mas EUA e Israel ameaçam voltar a atacar.
Em setembro, o presidente Donald Trump rejeitou proposta iraniana semelhante, chamando as condições de "inaceitáveis", conforme o SBT News. Em outubro, o Irã disse aguardar uma resposta definitiva dos EUA e que não flexibilizaria as exigências, segundo a Bloomberg Línea.
O que dizem os Estados Unidos
Não há resposta formal à proposta de dois dias. No domingo, em comício em Iowa, Trump afirmou que os EUA destruíram grande parte das capacidades militares iranianas e que restam "um ou dois" objetivos, e disse que "em algum momento" será preciso um "golpe contundente". Segundo a imprensa americana citada pelo DN, ele discutiu com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a possibilidade de retomar os bombardeios. Na semana anterior, o vice-presidente JD Vance enviou uma carta a Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, propondo retomar as negociações.
Baqaei respondeu que qualquer agressão terá "uma resposta contundente, imediata e global".
Incidentes no estreito
O Irã continua a reportar incidentes na região, que atribui a colisões de embarcações com minas. A organização britânica UKMTO classifica esses episódios como ataques. O DN noticiou que dois petroleiros colidiram com minas em Ormuz durante as negociações.
O que vem a seguir
O anúncio ocorre às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA, nesta terça-feira (3). Resta saber se Washington responderá à proposta, se as conversas indiretas avançam ou se a ameaça de novos ataques se concretiza. O Tendência News acompanha o caso.
Análise
A oferta iraniana é, antes de tudo, uma negociação sob coação: a livre navegação em águas internacionais é um pressuposto do comércio global, e condicioná-la a concessões políticas e financeiras transforma uma rota comum em moeda de barganha. Quem paga a conta é o consumidor, pela via do petróleo mais caro e do frete mais incerto, e empresas de países que nada têm com o conflito.
Cabe também cobrar transparência de Washington. Bloqueios navais, sanções e ameaças de ataque são decisões de Estado com custo econômico amplo e deveriam ser debatidas com clareza e dentro dos limites institucionais, e não conduzidas por acenos em comícios. Em ambos os lados, a ausência de regras previsíveis é o que mais prejudica a atividade econômica. Uma solução duradoura passa por garantias verificáveis de passagem livre, não por prazos de efeito político imediato.



