A vaquinha virtual aberta pelo PT para pagar despesas da campanha de reeleição de Lula, noticiada aqui, tem um histórico que ajuda a dimensionar a meta de R$ 7 milhões. Reportagem do O Globo de 7 de novembro reúne os números das campanhas de financiamento coletivo de 2018, 2022 e 2026 e compara o desempenho dos presidenciáveis deste ano.

O que o PT pede e até quando

O partido anunciou, após a vitória de Lula no segundo turno (25 de outubro), uma "vaquinha virtual" para arrecadar R$ 7 milhões e "fechar as contas" da campanha. Os pedidos são de doações de R$ 13 por Pix, número do partido nas urnas, até 11 de novembro, segundo ND Mais e O Globo. O coordenador financeiro da campanha, José de Filippi, descreveu o valor como "acessível". As reportagens consultadas não informam quanto já foi arrecadado.

Vaquinhas de Lula: de R$ 1,5 milhão a R$ 7 milhões

Segundo O Globo, o financiamento coletivo é permitido pela Justiça Eleitoral desde 2017. Lula o usou em 2018, quando teve o nome barrado nas urnas e levantou R$ 1,5 milhão, e em 2022, quando arrecadou R$ 6,8 milhões. A meta de agora, de R$ 7 milhões, fica portanto no patamar do maior valor já obtido por ele em vaquinha, e a diferença é que desta vez o dinheiro serve para pagar contas depois da eleição, não para financiar a disputa.

Como foram os outros candidatos em 2026

De acordo com O Globo, os resultados de financiamento coletivo na eleição presidencial foram bem desiguais:

  • Renan Santos (Missão): R$ 2,5 milhões, doados por 37.810 pessoas.
  • Flávio Bolsonaro (PL): R$ 1,26 milhão, de 20,5 mil apoiadores; ele encerrou os pedidos de doação após a derrota.
  • Samara Martins (UP): R$ 90,6 mil.
  • Augusto Cury (Avante): R$ 13,5 mil.
  • Ronaldo Caiado (PSD): R$ 8,1 mil.

Com Pix de R$ 13, a meta do PT exige cerca de 538 mil doações, número apontado por outras reportagens e quase 15 vezes o total de doadores de Renan Santos, o mais bem-sucedido entre os rivais (cálculo do Tendência News).

De onde veio o dinheiro da campanha de Lula

Os dados do TSE citados por O Globo mostram que a candidatura de Lula custou R$ 93 milhões, abaixo do limite de gastos de R$ 133 milhões, e arrecadou cerca de R$ 129 milhões. Desse total, R$ 123 milhões vieram da fatia do Fundo Especial de Financiamento de Campanha destinada ao PT, R$ 1,3 milhão do fundo partidário e R$ 4,1 milhões de doações de apoiadores feitas direto na conta da campanha. O PT recebeu R$ 615 milhões do fundo eleitoral neste ano, segundo maior valor, atrás do PL (R$ 881 milhões).

O ND Mais registra números ligeiramente diferentes: R$ 129,8 milhões de receita, 95,75% deles do fundo eleitoral, e R$ 92,2 milhões em despesas contratadas. Como a prestação de contas ainda é parcial, as diferenças entre veículos podem refletir o momento da consulta.

Resposta da campanha e o que falta saber

Filippi disse à Veja, segundo as reportagens, que o balanço no TSE não inclui todos os custos do segundo turno. A campanha não detalhou, nas matérias consultadas, quais despesas formam os R$ 7 milhões. Também não foi localizada, nas reportagens lidas até a publicação, crítica formal de adversários específica a esta vaquinha. A prestação de contas final ao TSE deve mostrar os compromissos pendentes.

Análise

O quadro numérico é revelador: de cada R$ 100 que a campanha de Lula recebeu, cerca de R$ 96 vieram do fundo eleitoral, isto é, de impostos pagos por todos, e pouco mais de R$ 3 de doações diretas de apoiadores. A vaquinha de R$ 13 é, na prática, o primeiro teste de quanto da militância está disposta a pagar do próprio bolso pela estrutura que o partido montou.

Para a tradição austríaca e para o princípio da não agressão, esse é o ponto central. Murray Rothbard sustentava que financiar atividade política por tributação obriga o cidadão a custear ideias que talvez rejeite; a doação voluntária é o oposto, e é saudável que ela exista. Mas a coexistência de um fundo bilionário com um pedido de socorro ao eleitor mostra que o dinheiro compulsório não substitui a disciplina orçamentária: sem o custo de convencer doadores, partidos têm menos incentivo a gastar com prudência.

Vale o mesmo critério para todos. O PL recebeu ainda mais do fundo (R$ 881 milhões) e a crítica ao modelo não depende de quem se beneficia. Bastiat falava no que se vê e no que não se vê: o que se vê é o gasto de campanha; o que não se vê é o que os pagadores de impostos deixaram de fazer com esse dinheiro. A transparência pedida pelo próprio partido na vaquinha deveria valer também para a explicação detalhada das despesas ainda não pagas e para o balanço final no TSE.