O PT abriu uma "vaquinha" virtual para arrecadar R$ 7 milhões e quitar despesas da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O partido pede doações via Pix de R$ 13, número da legenda nas urnas, e a arrecadação fica aberta até quarta-feira, 11 de novembro. A iniciativa foi divulgada no site do partido e nas redes sociais e noticiada pelo Metrópoles na noite de 7 de novembro.

Como funciona a vaquinha

Segundo as reportagens consultadas, a mensagem do partido convida apoiadores a ajudar a "quitar as despesas da campanha eleitoral", com a promessa de transparência. Para chegar a R$ 7 milhões somente com doações de R$ 13, seriam necessárias cerca de 538 mil contribuições. O Mixvale informa que as doações são feitas apenas por Pix, para o CNPJ da campanha registrada como "Eleição 2026 Luiz Inácio Lula da Silva Presidente", e que a campanha justifica o canal pela rastreabilidade exigida pela lei eleitoral. As reportagens lidas não informam quanto já havia sido arrecadado até a publicação.

O coordenador financeiro da campanha, José de Filippi, disse, segundo o Mixvale, que o valor de R$ 13 é "acessível" e permite que qualquer militante participe.

O que dizem os números do TSE

O ponto que chamou a atenção das reportagens é que os dados públicos da Justiça Eleitoral mostram arrecadação maior que os gastos declarados. Os valores variam conforme o veículo:

  • Metrópoles e BNews: R$ 129 milhões arrecadados e R$ 93 milhões gastos.
  • Revista Oeste: prestação parcial com R$ 128,6 milhões em receitas e R$ 98,3 milhões em despesas, saldo de R$ 30,3 milhões.
  • Mixvale: R$ 129,8 milhões em receitas, dos quais R$ 123,7 milhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (o fundo eleitoral), e despesas citadas entre R$ 93 milhões e R$ 98,3 milhões.

A divergência entre os veículos pode vir do momento em que cada um consultou a prestação de contas, que ainda é parcial. O BNews observa que a reportagem original não explica por que seria preciso arrecadar mais R$ 7 milhões se a receita declarada supera a despesa declarada.

A explicação da campanha

À revista Veja, Filippi afirmou que o balanço registrado no TSE está incompleto porque ainda não inclui todos os custos do segundo turno. De acordo com a Revista Oeste, ele disse que a campanha usou quase todo o limite de gastos dessa etapa, de R$ 44 milhões, e que a prestação de contas final deverá listar os compromissos ainda não pagos. A campanha não detalhou, nas reportagens consultadas, quais despesas compõem os R$ 7 milhões.

Contexto: vaquinhas na eleição de 2026

A vaquinha não é novidade nesta eleição. A campanha de Lula já tinha aberto um financiamento coletivo no início da disputa, e outros candidatos fizeram o mesmo, entre eles Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão). Levantamento citado pelo jornal A Crítica, a partir de reportagem do Estadão de 18 de outubro, apontava R$ 1,1 milhão em financiamento coletivo declarado por Lula e R$ 400 mil por Flávio até a metade do segundo turno, em campanhas que também sugeriam valores ligados aos números de urna (R$ 13 e R$ 22).

Lula venceu o segundo turno, em 25 de outubro, contra Flávio Bolsonaro, com 51,79% dos votos válidos, segundo o Mixvale. A Revista Oeste informa que o PT recebeu em 2026 a segunda maior parcela do fundo eleitoral, atrás apenas do PL.

O que vem a seguir

A vaquinha termina em 11 de novembro. A prestação de contas final da campanha ao TSE deverá mostrar os gastos do segundo turno e as dívidas pendentes, e é a partir dela que será possível comparar a meta de R$ 7 milhões com os compromissos efetivamente listados.

Análise

Um partido que recebeu cerca de R$ 124 milhões do fundo eleitoral, pago por todos os contribuintes, pedir agora R$ 13 por Pix ao eleitor ilustra um problema de fundo: o financiamento da política brasileira depende, em enorme medida, de dinheiro compulsório. Para a tradição austríaca e para o princípio da não agressão, financiar campanhas com tributos obriga o cidadão a custear candidatos e ideias que ele pode rejeitar. A doação voluntária por Pix é o oposto disso, e, nesse ponto, a vaquinha é legítima: quem quiser contribuir contribui, quem não quiser não paga.

O problema é a transparência sobre a necessidade do pedido. Com receitas declaradas acima dos gastos declarados, a explicação de que faltam custos do segundo turno é plausível, mas só a prestação final poderá confirmá-la. Quando o dinheiro vem em sua maior parte do contribuinte, o partido deve ao público a lista detalhada do que ainda está em aberto, e não só a meta redonda.

Há também uma lição de incentivos, no espírito do "o que se vê e o que não se vê" de Bastiat. O que se vê é a vaquinha de R$ 13; o que não se vê é o fundo bilionário que torna campanhas caras menos dependentes da adesão voluntária de eleitores e doadores. Quando o custo de uma campanha é socializado, o partido tem pouco motivo para gastar com a parcimônia de quem usa dinheiro próprio ou de apoiadores. Mises lembrava que, sem o cálculo econômico do mercado, falta ao gestor o sinal de preços que disciplina o gasto.

O raciocínio vale para qualquer legenda, de qualquer campo: partidos que usam o fundo eleitoral e ainda recorrem a vaquinhas deveriam estar sujeitos ao mesmo escrutínio, e a defesa de financiamento realmente voluntário, com menos dinheiro público e mais prestação de contas, serve a governo e oposição.