O Banco Central do Paraguai (BCP) iniciou um procedimento de resolução do Ueno Bank, instituição que as reportagens consultadas descrevem como a quinta maior do sistema privado do país. A decisão foi tomada por unanimidade pelo diretório do BCP em 2 de novembro de 2026 e divulgada na madrugada de 3 de novembro. Segundo o BC, o índice de solvência do banco ficou abaixo de 50% do mínimo exigido, em parte por ajustes feitos nas demonstrações financeiras durante um processo de regularização. A imprensa brasileira passou a chamar o caso de "Master paraguaio", em referência ao Banco Master, mas a comparação vem de apelidos nas redes e de reportagens, não de uma conclusão das autoridades.
O que o Banco Central decidiu
A medida se apoia na Lei 2.334/03, que trata da garantia de depósitos e da resolução de entidades financeiras. A Superintendência de Bancos designou interventores para verificar a situação patrimonial do banco na data da resolução e preservar seus ativos. Diferentemente de uma falência comum, esse tipo de processo permite transferir saldos de depositantes para outros bancos antes de liquidar o que sobrar para pagar credores, segundo o Livecoins.
De acordo com a diretora do BCP Liana Caballero, citada pela agência EFE, nenhum serviço do banco está ativo e as agências foram fechadas. O aplicativo saiu do ar, cartões e transferências ficaram bloqueados e a polícia foi posicionada em frente a agências, segundo as reportagens. O BCP afirma tratar-se de um "caso pontual" que não compromete a estabilidade do sistema financeiro paraguaio e pediu que os clientes consultem apenas canais oficiais.
Quantos clientes e quanto dinheiro
Os números divergem entre as fontes. A EFE e a CNN Chile falam em 2,9 milhões de clientes; o Times Brasil e o Livecoins citam cerca de 3 milhões, o que equivaleria a cerca de 60% da população adulta do país, conforme o banco. Sobre dinheiro público, o Times Brasil e o Livecoins apontam entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões sob gestão do Ueno.
O Instituto de Previsão Social (IPS) tem US$ 355 milhões investidos no banco, cerca de 9% de sua carteira, segundo a EFE (o Times Brasil e o Livecoins citam cerca de US$ 380 milhões do IPS, que busca recuperar o valor na Justiça). O IPS paga pensões a cerca de 32 mil aposentados por meio do Ueno e informou que os benefícios continuarão sendo pagos, com as contas transferidas para outro banco. A estatal ANDE e a binacional Itaipu também mantêm recursos na instituição.
Garantia de depósitos e devolução
O Fundo de Garantia de Depósitos cobre até 75 salários mínimos mensais por pessoa e por instituição, o que hoje equivale a 228,3 milhões de guaranis (cerca de US$ 38 mil). O limite vale por depositante, não por conta. Estimativas preliminares do BCP indicam que cerca de 97% dos clientes têm seus saldos totalmente cobertos, segundo o Times Brasil e o Ámbito.
Quanto a prazos, as reportagens trazem versões diferentes: o Times Brasil fala em 15 dias a partir da intervenção, prorrogáveis uma vez; o Livecoins cita até 15 dias úteis, também prorrogáveis, em declaração do diretor do BCP Marco Aurelio González. Como primeira etapa, o BC prometeu pagamento de até 10 milhões de guaranis (cerca de US$ 1.675) por cliente, descontadas dívidas com o banco, sem data confirmada nas matérias lidas. Quem tem saldo acima do limite não tem garantia de recebimento integral; isso depende do resultado da resolução e da liquidação de ativos.
Investigação criminal
A Procuradoria abriu uma causa penal após denúncia do diretório do BCP, com mais de 200 páginas e cerca de 2 mil folhas de anexos, segundo a EFE. O maior acionista e cofundador, Miguel Vásquez, e seis diretores se entregaram à Justiça; outro diretor deveria se apresentar na quarta-feira (4). O Times Brasil relata que a promotoria pediu a prisão de oito pessoas, entre elas o presidente do banco, Juan Manuel Gustale, por suspeita de gestão fraudulenta e outros crimes, e que mais dois diretores foram detidos ao longo do dia. A contagem de detidos varia de sete a dez conforme a reportagem e o horário.
Trata-se de investigação em curso: ninguém foi condenado. A defesa de Vásquez, segundo a EFE, informou o comparecimento do diretor restante. Nas reportagens consultadas não havia manifestação detalhada da defesa dos diretores sobre o mérito das acusações. Antes do anúncio do BC, o Ueno havia dito que não recebera notificação formal de ação do fundo de garantia e que operava normalmente, e negou notícias sobre reuniões de emergência na residência presidencial, segundo o Livecoins.
Como a crise chegou ao Banco Central
O BCP afirma que identificou em junho indícios de créditos concedidos pelo Ueno a empresas ligadas a seus próprios donos. Em outubro, a agência Fitch Ratings mudou a perspectiva do banco para negativa, citando crescimento acelerado do balanço e alto volume de ativos intangíveis, e menos de uma semana antes da intervenção o Ueno anunciou um aumento de capital de US$ 100 milhões, segundo o Times Brasil.
O presidente do BCP, Carlos Carvallo, assinou sua renúncia. Ele dirigiu a Financiera Ueno, depois convertida em banco, antes de assumir o BC em 2023. Segundo o Times Brasil, o presidente Santiago Peña pediu a saída e Carvallo permanece provisoriamente para conduzir a intervenção; o Ámbito informa que ele diz ter se afastado das decisões relativas ao banco. Em outubro, senadores já haviam pedido a renúncia da diretoria do BCP, por considerarem insatisfatório um relatório enviado ao Senado.
Repercussão política
Peña cancelou a viagem à Cúpula Ibero-Americana de Madri. Classificou o episódio como "um caso particular", defendeu o diretório do BC ao dizer que abrir um sumário não significa que um banco vá fechar, e escreveu nas redes que os responsáveis responderão à Justiça "sem exceções nem privilégios", conforme as reportagens. Ele também fechou acordo com líderes do Congresso para acelerar um projeto que viabilize o pagamento a depositantes e a recuperação de recursos públicos.
Há divergência sobre a ligação do presidente com o banco. O Times Brasil e o Livecoins afirmam que Peña foi sócio do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. O presidente do Ueno, Gustale, disse que Peña não tinha vínculo com o banco, mas era acionista da Ueno Holding; segundo o ABC Color, citado pela EFE, ele vendeu essas participações em abril de 2025. O Ámbito registra que a instituição afirma que Peña nunca foi acionista nem investidor do banco. Em 2024, quando o IPS comprou títulos do Ueno de 250 bilhões de guaranis (cerca de US$ 32 milhões na época), Peña chamou de "campanha midiática" as notícias sobre conflito de interesses.
Senadores da oposição anunciaram que pedirão juízo político contra Peña e o vice Pedro Alliana. O pedido exigiria votos do Partido Colorado, que controla as duas casas. Alliana suspendeu sua pré-candidatura presidencial para 2028. O economista Luis Rojas disse à AP que houve "tratamento preferencial", o que "levantou muitas suspeitas". A Asoban, associação dos bancos, afirmou que o sistema segue sólido e descartou contágio; a União Industrial Paraguaia pediu renovação das autoridades do BC e apuração de possíveis negligências.
O que vem a seguir
Os interventores devem concluir o levantamento de ativos e passivos, o BCP deve detalhar o cronograma de devolução e o Congresso analisa o projeto sobre o uso do fundo de garantia. A Câmara dos Deputados convocou sessão extraordinária para quarta-feira (4).
Análise
O caso Ueno ilustra o problema que Ludwig von Mises descrevia ao tratar do crédito: quando bancos crescem rápido emprestando a partes relacionadas e sustentados por uma confiança que o regulador e o Estado ajudam a fabricar, o desfecho é uma correção brusca, com perda para quem confiou. Que o banco dobrou de tamanho enquanto recebia depósitos de entidades públicas, que o regulador era chefiado por um ex-dirigente da instituição e que a Fitch já sinalizava riscos mostra uma supervisão que falhou justamente onde se esperava que protegesse.
Há também o que Bastiat chamaria de "o que se vê e o que não se vê". Vê-se a garantia de até US$ 38 mil que tranquiliza 97% dos clientes. Não se vê o incentivo que ela cria: com depósitos garantidos e dinheiro público aplicado no mesmo banco, o cliente e o gestor público deixam de avaliar o risco, e quem paga a conta é o contribuinte, por meio do fundo e de eventuais projetos de lei para cobrir perdas. Responsabilidade individual exige que quem administra recursos de aposentados e de estatais responda por eles.
Do ponto de vista do Estado de Direito, o essencial é que a apuração siga o devido processo. Há acusações graves, mas ninguém foi condenado, e a presunção de inocência vale para diretores e para o presidente, cujas ligações com o grupo controlador exigem esclarecimento transparente. Seja qual for o desfecho, a lição de Hayek é que nenhum regulador reúne o conhecimento disperso necessário para antecipar todos os riscos de um banco; a disciplina mais eficaz é a de um sistema em que o risco é suportado por quem o assume, e não repassado ao pagador de impostos.



