Na véspera e no dia do segundo turno, três conteúdos ligados a apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) circularam nas redes sociais e na imprensa: um vídeo de um homem negro conduzido por uma corrente em ato de campanha, o registro de uma eleitora fazendo saudação nazista perto de um local de votação e uma imagem falsa, criada por inteligência artificial, de uma mulher rasgando uma bandeira de Nossa Senhora Aparecida. Nas reportagens consultadas pelo Tendência News, não há declaração de Flávio ou de sua campanha sobre os casos. Abaixo, o que se sabe de cada um e o que dizem os envolvidos.
O homem acorrentado em ato na Barra da Tijuca
O vídeo foi gravado no sábado (24), no último ato de rua da campanha de Flávio no Rio, na Barra da Tijuca. Nas imagens, feitas pelo jornalista Raphaël Bernard e publicadas pela revista Fórum (e registradas também pelo repórter Luís Adorno, do UOL), um homem branco segura uma corrente presa a um homem negro, que usava roupas com referências ao PT e carregava um tridente, enquanto grita ofensas ao presidente Lula. Segundo o G1, Flávio participou do ato acompanhado de aliados como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o governador eleito do Rio, Douglas Ruas (PL).
O homem que segurava a corrente afirmou, em vídeo, que a cena foi uma "sátira política" e negou intenção racista. Segundo a explicação dele, o outro participante, amigo seu, estava caracterizado como Satanás (e não como pessoa do PT) e a ideia era representar o presidente Lula "preso" por Bolsonaro, que, para ele, está em "prisão injusta". Ele pediu desculpas a quem se sentiu ofendido. O jornalista que gravou a cena disse ter sentido "choque grande" e que "não tem contexto" que justifique ou amenize a imagem de um homem branco segurando um homem negro em correntes.
A Polícia Civil do Rio informou que não houve registro de ocorrência com essas características. O TRE-RJ disse ter tomado conhecimento das imagens, e a TV Globo apurou que o tribunal analisa quais medidas tomar.
A saudação nazista em colégio de Botafogo
No domingo (25), uma eleitora com camisa da seleção e boné de Donald Trump foi filmada fazendo a saudação nazista no Colégio Santo Inácio, no Rio. Segundo o relato da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj), ao ser informada de que um dos presentes era judeu, ela teria respondido "pior ainda". O caso foi registrado na 10ª DP (Botafogo), e a Polícia Civil diz que há diligências em andamento. A mulher não foi identificada. A Fierj repudiou o episódio e disse que acompanhará a apuração, e o deputado federal eleito Rick Azevedo (PSOL) acionou o Ministério Público do Rio. O boné e a camisa são adereços que o GLOBO descreve como usados por militantes bolsonaristas, o que não significa que a eleitora represente a campanha.
A imagem falsa de Nossa Senhora Aparecida
O terceiro caso é uma imagem que circulou com o logotipo do g1, mostrando uma manifestante rasgando uma bandeira de Nossa Senhora Aparecida em suposto ato pró-Flávio em Belo Horizonte. O Fato ou Fake concluiu que é falsa: o g1 nunca publicou a foto, e duas ferramentas de detecção apontaram uso de IA (marca d'água de ferramenta da OpenAI e 96% de chance de ser IA, segundo o Sightengine). A imagem circulou num contexto em que, durante a campanha, viralizaram publicações atribuindo a Flávio e a políticos de direita a intenção de tirar da santa o título de padroeira do Brasil.
Análise
Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.
Os três casos pedem tratamento distinto. A saudação nazista e a imagem de um homem negro acorrentado são condutas de indivíduos, e cabe a cada um responder por elas perante a polícia, o Ministério Público e a Justiça, com direito de defesa. Atribuir esses atos a um candidato ou a todos os seus eleitores, sem prova de que ele os estimulou, é coletivizar culpa, e isso vale para qualquer lado do espectro. Ao mesmo tempo, a liberdade de expressão, que um liberal defende com ênfase, protege a sátira política e o deboche contra quem governa, mas não a apologia de ideologia que massacrou milhões nem imagens que remetem à escravidão; a fronteira, em caso de dúvida, deve ser traçada por juiz, não por multidão. Já a fabricação de imagem falsa com IA é desinformação eleitoral: prejudica o debate, seja qual for a candidatura que ela tente atingir, e reforça a necessidade de transparência e checagem.