Em pouco mais de três semanas, dois surtos de ataques a sistemas de refrigeração de supermercados atingiram a Europa: um em outubro, na França, e outro nesta segunda-feira (2), em sete países. Sem pedido de resgate nem dados roubados relatados, a pergunta mais repetida é por que alguém atacaria freezers. As reportagens consultadas apontam para uma combinação de equipamento antigo, acesso remoto e um ambiente geopolítico tenso, mas nenhuma autoria foi confirmada.

Para o resumo dos incidentes desta segunda, veja a cobertura anterior do Tendência News. Para o risco em casa, veja Minha geladeira pode ser invadida?.

O que se sabe sobre o método

Segundo o g1, Stephan Moelans, CEO da Sabcobel, empresa belga responsável pelos sistemas da rede Delhaize, disse à agência Belga que houve um ciberataque e que os evaporadores foram acionados em modo de degelo, o que elevou a temperatura dos equipamentos. A Reuters procurou a Sabcobel, que não comentou. Na França, segundo o relato publicado pela Associated Press, os invasores forçaram ciclos contínuos de descongelamento e as temperaturas chegaram a 50 °C.

O Globo informa que um porta-voz da dinamarquesa Danfoss disse que os incidentes de agora envolveram equipamentos da empresa, como na França. Em declaração à AP, a Danfoss afirmou que a maior parte dos sistemas afetados na França eram produtos antigos, sem atualizações de software ou de segurança, e recomendou manter o firmware atualizado e operar atrás de um firewall. Na Estônia, a rede Selver disse que o problema ocorreu na única loja que ainda usava um modelo antigo de controle da Danfoss, e que foi corrigido em poucos minutos.

Por que equipamento antigo é o elo fraco

Na Finlândia, o chefe de segurança corporativa da Kesko, Petri Käyhkö, disse que o problema atingiu apenas algumas lojas menores, cujos equipamentos não estavam incluídos no sistema centralizado de proteção da rede. Na Suécia, o chefe do Centro Nacional de Cibersegurança, John Billow, disse à Reuters (segundo o g1) que o órgão identificou nas últimas semanas "um número considerável de equipamentos conectados a sistemas operacionais vulneráveis" no país e deixou clara a necessidade de atualizá-los ou instalar correções.

A DW (publicada no UOL) cita um especialista segundo o qual é difícil identificar a autoria de invasões desse tipo: quem acessa um painel de controle exposto quase não deixa rastros, e um adolescente e um serviço de inteligência pareceriam muito semelhantes do ponto de vista de quem defende o sistema.

Da TI para o mundo físico

O Globo explica que os episódios chamam atenção para ataques à tecnologia operacional, que controla equipamentos e processos físicos, e não apenas o roubo de dados ou a extorsão. Em agosto, o Centro Nacional de Cibersegurança do Reino Unido (NCSC) alertou para o aumento de ataques com potencial de causar interrupções físicas em vários setores, em parte ligado à instabilidade geopolítica. Muhammad Yahya Patel, da empresa de segurança Huntress, classificou os casos como uma nova fronteira da sabotagem digital.

O jornal também registra que, nos Estados Unidos, o Pentágono afirmou na semana passada investigar falhas em freezers usados para armazenar alimentos em instalações militares. A informação é do jornal, e a causa dessas falhas não foi esclarecida nas fontes consultadas.

Quem pode estar por trás?

Ninguém reivindicou os ataques. Katrien Eggers, porta-voz do Centro de Cibersegurança da Bélgica, afirmou que talvez nunca se saiba quem está por trás e disse que a evolução da inteligência artificial também contribui para o aumento de incidentes, já que a IA pode ser usada para explorar fraquezas em sistemas, sobretudo por atores sofisticados.

A Comissão Europeia chamou os ataques de tentativa deliberada de interromper a cadeia de abastecimento alimentar e minar a confiança dos consumidores, nas palavras do comissário de Agricultura, Christophe Hansen. A DW lembra que as autoridades europeias se preocupam com ameaças híbridas à infraestrutura crítica desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, e que a Alemanha fala em guerra híbrida; Moscou nega qualquer envolvimento em sabotagens. Importante: as fontes não ligam os ataques a freezers a nenhum país ou grupo. A relação com o contexto geopolítico é uma preocupação declarada das autoridades, não uma conclusão de investigação.

Os números divergem

As contagens variam. O Carrefour Bélgica falou em cerca de 15 de 700 lojas; o g1 diz "quase 15"; a Coop sueca teve seis lojas afetadas segundo o Aftonbladet (citado pelo g1) e sete segundo O Globo; a Intermarché relatou cerca de 15 lojas. Na França, a AP citou o ministro das Finanças, Roland Lescure, para cerca de 700 dos 10 mil supermercados, e a contagem de redes específicas variou conforme a fonte.

O que muda para quem compra e para quem vende

O impacto direto foi o descarte de alimentos, prateleiras de frescos e congelados esvaziadas por algumas horas e, na França, relatos de incêndios. A Ahold Delhaize pediu desculpas aos clientes pela falta de produtos refrigerados nas lojas afetadas. A Musgrave disse que o problema na Irlanda foi resolvido e as lojas funcionam normalmente. A orientação dos fabricantes e das agências é a mesma para o varejo: atualizar equipamentos, não expor painéis de controle diretamente à internet e usar firewall.