Supermercados em pelo menos seis países europeus relataram problemas nos sistemas de refrigeração nesta segunda-feira (2), em incidentes que aparentam ter sido causados por ataques cibernéticos, segundo a cobertura da InfoMoney. Freezers e geladeiras tiveram a temperatura alterada, e algumas lojas descartaram alimentos que perderam as condições de armazenamento. Os casos lembram o ataque de outubro na França, que também atingiu equipamentos de refrigeração.

O que aconteceu nesta segunda-feira

Os relatos vêm de Bélgica, Estônia, Finlândia, Irlanda, Luxemburgo e Suécia. As empresas descreveram o problema de formas diferentes, e nem todas confirmaram um ataque.

  • Suécia: lojas das redes ICA e Coop registraram freezers mais quentes. Uma unidade da ICA Kvantum em Sjöbo informou em sua página no Facebook que a temperatura dos freezers foi elevada a 50 °C e disse suspeitar de invasão. A ICA Sverige falou em um "número limitado de lojas" afetadas durante a noite, sem confirmar ataque. A Coop disse ter sete lojas atingidas e confirmou um hack.
  • Finlândia: a Kesko, segunda maior rede de supermercados do país, informou que alguns equipamentos em pequenas mercearias K-food tiveram "anomalias de temperatura" durante a noite. O chefe de segurança corporativa, Petri Käyhkö, disse que um incidente de TI não está descartado e que o problema não é generalizado, pois atinge lojas cujos equipamentos não estão cobertos pelas proteções centralizadas da empresa.
  • Estônia: a rede Selver teve o problema em sua única loja que ainda usa um sistema de controle de refrigeração mais antigo da Danfoss. Segundo um porta-voz à emissora ERR, foi resolvido em minutos.
  • Bélgica e Luxemburgo: a holandesa Ahold Delhaize informou que um incidente de TI afetou a refrigeração de dezenas de unidades; a oferta de frescos e congelados foi temporariamente reduzida, mas centros de distribuição e entregas seguiram funcionando. O Carrefour Bélgica relatou impacto limitado em 15 de suas mais de 700 lojas.
  • Irlanda: o Musgrave Group disse que um incidente cibernético afetou a refrigeração em 13 lojas SuperValu, e os produtos refrigerados e congelados das unidades afetadas foram retirados da venda por precaução.

O papel da Danfoss

Um porta-voz da fabricante dinamarquesa de sistemas de refrigeração Danfoss afirmou, segundo a InfoMoney, que os incidentes na Europa envolveram produtos da empresa, como ocorreu na França em outubro. Até o momento, as autoridades não indicaram quem estaria por trás dos casos, e ninguém reivindicou a autoria.

O precedente francês

Em outubro, um ataque atingiu supermercados franceses. Em 13 de outubro, o ministro das Finanças da França, Roland Lescure, disse ao Parlamento que cerca de 700 dos 10 mil supermercados do país foram afetados, segundo a Associated Press. Redes como Intermarché, Coopérative U, Carrefour e Monoprix estavam entre as atingidas. A Coopérative U informou 80 lojas afetadas, e o grupo Mousquetaires (Intermarché e Netto) citou 300 lojas, ainda segundo a AP. A cobertura brasileira da época trouxe números menores, como cerca de 150 lojas Intermarché e 80 do Carrefour, o que mostra que as contagens divergiram conforme a fonte e a data.

Segundo a BFM-TV, citada pela AP, os invasores forçaram ciclos contínuos de descongelamento e elevaram as temperaturas a até 50 °C. Houve relatos de alimentos estragados e de incêndios. A promotoria de Paris abriu investigação por meio de sua unidade de crimes cibernéticos, e a agência francesa de cibersegurança disse ter conhecimento de "numerosos comprometimentos" em módulos de controle remoto da Danfoss e da americana Copeland.

Falhas já conhecidas e equipamentos antigos

A Danfoss disse que a maioria dos sistemas afetados na França era de produtos antigos, sem atualizações de software ou segurança, e recomendou manter os sistemas atualizados e protegidos por firewall. Em agosto, a empresa de segurança Claroty identificou vulnerabilidades nas plataformas Danfoss AK-SM 800A e Copeland XWeb Pro, com controladores acessíveis pela internet pública. Segundo a Claroty, as falhas já tinham sido corrigidas. A Copeland afirmou que o problema estava em uma geração de controladores descontinuada e sem suporte.

A InfoMoney observa que, se os incidentes desta segunda forem de fato ataques, os equipamentos podem ter permanecido vulneráveis por usarem software legado que não pode receber correções.

Por que isso importa

Geladeiras, aquecimento, câmeras e alarmes, antes quase totalmente mecânicos, agora podem ser monitorados e controlados à distância, o que abre novas oportunidades para criminosos. Em declaração à AP, o pesquisador Christopher Whyte, da Virginia Commonwealth University, avaliou que o ataque francês provavelmente não foi difícil de executar, por conta da exposição dos controladores à rede, e destacou a ausência de pedido de resgate ou de roubo de informações.

O que ainda não se sabe

Não há confirmação sobre quem está por trás dos ataques, nem sobre a motivação, e algumas redes, como a ICA, ainda não confirmaram oficialmente que se trata de ataque cibernético. O número total de lojas afetadas nesta segunda-feira também não foi consolidado. Não há, até o momento, relato de impacto em supermercados brasileiros nas fontes consultadas.