A palavra "Polymarket" disparou nas buscas na reta final da eleição. Ela aparece em publicações de candidatos como se fosse um termômetro do voto, mas funciona de outra forma. Veja o que é, por que está proibida no Brasil e por que especialistas dizem que não substitui pesquisa.
O que é a Polymarket
É uma plataforma baseada em blockchain onde as pessoas negociam "ações" de sim ou não sobre eventos futuros, como o resultado de uma eleição. Segundo o InvestNews, cada ação vencedora paga US$ 1 e a perdedora vira pó. O preço de uma ação funciona como a probabilidade que o mercado atribui ao evento: se a ação de "Fulano vence" custa 52 centavos, o mercado indica cerca de 52% de chance. As negociações são liquidadas em uma moeda digital atrelada ao dólar.
Segundo o InvestNews, em 15 de setembro já haviam sido negociados cerca de US$ 151,8 milhões (R$ 780 milhões) em cinco mercados sobre a eleição presidencial brasileira, quase tudo no mercado sobre quem vence. Naquele momento, o preço indicava 51,6% para Flávio Bolsonaro e 45% para Lula. São valores de setembro e mudam o tempo todo.
Por que foi proibida
O governo anunciou em 24 de abril de 2026, pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, o bloqueio da Polymarket e de outros 26 sites de apostas em eventos, segundo o Jornal de Brasília. O ministro afirmou que a lei só autoriza apostas esportivas e jogos de azar on-line, e que uma resolução proíbe explicitamente esse tipo de portal. O InvestNews registra que o Conselho Monetário Nacional vetou mercados de derivativos ligados a eleições, esportes e jogos. Na prática, o acesso continua possível para quem usa VPN ou mora no exterior, e a página da empresa em redes sociais segue acessível, segundo o Aos Fatos.
Por que não é pesquisa
O Aos Fatos mostrou que Flávio Bolsonaro e ao menos nove outros candidatos compartilharam probabilidades da Polymarket e da Kalshi para sugerir que ele lidera. A onda começou depois que a conta americana da Polymarket publicou que ele havia chegado a 58% de chance de vitória. Um perfil pago para impulsionar uma dessas postagens alcançou, segundo a reportagem, entre 250 mil e 300 mil visualizações com um gasto estimado de R$ 1.500 a R$ 2.000. Os candidatos não responderam ao Aos Fatos.
Os advogados eleitorais Rafael Martins e Fernando Neisser disseram ao Núcleo, citado pelo Aos Fatos, que as probabilidades refletem o dinheiro de apostadores que se selecionam sozinhos, e não a opinião de um grupo representativo de eleitores. Neisser observou que o formato de barras e percentuais lembra o de pesquisas divulgadas. Para os dois, a prática é problemática. Segundo os especialistas, a Lei 9.504/97 prevê multa de R$ 54 mil a R$ 100 mil para quem divulga pesquisa não registrada, além da retirada do conteúdo, e a repetição poderia levar a questionamentos por abuso de poder, conforme cada caso. O Ministério Público Eleitoral não quis comentar, e o TRE-SP disse que a Justiça Eleitoral só age quando é acionada.
O InvestNews também lembra que os mercados têm liquidez desigual, o que pode dificultar a saída de uma posição sem prejuízo, e que há dúvidas sobre uso de informação privilegiada nas apostas.
E as pesquisas registradas?
A BBC News Brasil informou que a pesquisa Quaest de 17 a 20 de outubro, com 2.154 entrevistados e margem de erro de 2 pontos percentuais, apontava Flávio entre 43% e 47% e Lula entre 42% e 46%, um empate técnico. Pesquisas registradas seguem metodologia pública e informam margem de erro. Um preço de aposta não informa nenhuma das duas coisas.
Análise: informação, sim; propaganda disfarçada, não
Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.
Mercados de previsão são, em teoria, um jeito legítimo de agregar informação, e muitos liberais veem com ceticismo a proibição estatal de que adultos apostem o próprio dinheiro. O problema desta campanha é outro: apresentar um preço de mercado como se fosse pesquisa de opinião, para influenciar eleitores. Honestidade na rotulagem importa tanto quanto liberdade. Quem divulga uma probabilidade deve dizer o que ela é, e quem a lê deve lembrar que ela mede dinheiro, não votos.