O presidente Lula (PT) deve se encontrar nos próximos dias, em Brasília, com o economista André Lara Resende, um dos formuladores dos planos Cruzado e Real, ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do BNDES. A reunião foi noticiada pela coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo, e repercutida por Brasil 247 e Diário do Centro do Mundo. As reportagens consultadas não informam o dia exato do encontro nem se houve confirmação oficial do Palácio do Planalto, e ele ainda não aconteceu.

O que Lara Resende propõe

O economista defende reduzir a taxa Selic a cerca de 7,5% ao ano em um período de 12 meses e, depois, mantê-la dentro de um intervalo permanente entre 3% e 5,5% ao ano. O piso seria a meta de inflação, hoje de 3%. O teto seria a soma da meta com o crescimento real potencial da economia, estimado por ele em 2,5% ao ano, o que dá 5,5%. Segundo o Brazil Stock Guide, os 7,5% iniciais incluiriam uma margem temporária de dois pontos percentuais, retirada ao longo do tempo, e o Banco Central anunciaria a trajetória de queda com antecedência.

Outro ponto é a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), que definiria metas integradas para as políticas fiscal e monetária em horizontes de quatro a cinco anos. O Banco Central manteria a gestão operacional, mas atuaria dentro de diretrizes conjuntas para juros, meta de inflação e sustentabilidade das contas públicas. O plano também cita simplificação de impostos, revisão da qualidade do gasto e separação entre o orçamento de custeio e o de investimentos de longo prazo.

As ideias constam do texto "Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos", publicado em 25 de setembro no Substack do economista e debatido no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI).

A tese: juros como causa do desajuste fiscal

Lara Resende sustenta que os juros altos, e não apenas o gasto público, são o principal vetor do crescimento da dívida. Ele distingue o resultado primário (receitas menos despesas, sem juros) do resultado nominal, que inclui a conta de juros. Segundo os números citados pelas reportagens, o custo médio da dívida pública chegou a 12,68% ao ano em junho de 2026. Sobre um estoque bruto de R$ 10,9 trilhões, equivalente a 82,5% do PIB, isso representa cerca de R$ 1,4 trilhão por ano, ou 10,5% do PIB.

Com o PIB nominal crescendo cerca de 7% ao ano e o custo da dívida perto de 13%, a relação dívida/PIB subiria, pelas contas do economista, cerca de 5,7% ao ano. Ele projeta uma economia de quase 4 pontos percentuais do PIB se o custo médio cair de cerca de 13% para 7,5%, ressalvando que isso depende de os juros de fato caírem; títulos pós-fixados (LFTs) ajudariam a transmitir a queda mais rápido. Ele não descarta o ajuste fiscal e admite que o Estado gasta mal, mas diz que cortar despesas primárias não bastaria enquanto a conta de juros crescer acima da renda nacional.

As reportagens consultadas não informam a Selic vigente; os 7,5% são a meta da proposta, não a taxa atual.

Riscos reconhecidos e críticas

O próprio autor admite que um corte forte pode levar investidores a comprar dólares e tirar capital do país, o que enfraqueceria o real e pressionaria combustíveis e preços de importados. Sua resposta é o uso das reservas internacionais, acima de US$ 350 bilhões, para suavizar movimentos do câmbio, e a credibilidade do plano anunciado. Ele reconhece que os parâmetros precisam ser negociados e que o ambiente institucional atual pode não permitir implantação imediata.

No debate do CEBRI, participantes questionaram se as reservas bastariam contra uma corrida ao dólar, se o anúncio antecipado provocaria reação defensiva de investidores e se o mercado confiaria nos compromissos do governo. O Brazil Stock Guide aponta que a proposta tende a causar desconforto entre bancos, gestores e investidores estrangeiros; nenhuma das reportagens relata reação concreta de mercado.

Em texto crítico, o analista João Caetano Leite aceita que o custo fiscal dos juros é alto e que a coordenação entre Tesouro e Banco Central pode melhorar, mas argumenta que um teto para a Selic muda a expectativa sobre a reação do BC à inflação, que a igualdade entre juro real neutro e crescimento é uma hipótese forte e que a correlação entre juros e inflação não prova causalidade. Para ele, uma queda dos juros lida como tolerância à inflação pode estimular a demanda no curto prazo.

Histórico

Segundo o Brasil 247, em 2022 um grupo coordenado por Lara Resende no CEBRI publicou diretrizes defendendo a integração entre as políticas fiscal e monetária por um comitê conjunto. O atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, fazia parte dessa equipe. As ideias foram apresentadas a Lula e a interlocutores do governo sem avançar, e não traziam o cronograma detalhado de queda da Selic que agora está em discussão. A reportagem do Diário do Centro do Mundo também registra que o economista acusa o BC de manter juros altos com base em uma "teoria anacrônica". A manifestação do Banco Central sobre a proposta não constava das reportagens consultadas.

O que vem a seguir

O encontro com Lula é o próximo passo conhecido. Não há projeto de lei ou decisão formal em tramitação: a criação do CFMN e de limites para a Selic exigiria mudança institucional, e as reportagens não detalham o instrumento necessário. A Selic é definida pelo Copom, órgão do Banco Central.

Análise

Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, de linha conservadora e liberal na economia, inspirada na escola austríaca.

O diagnóstico de que a conta de juros pesa muito sobre o Orçamento é correto, mas a explicação é outra. Para a escola austríaca, juros são o preço do tempo, formado pela poupança e pela preferência temporal das pessoas. Mises e Böhm-Bawerk mostraram que fixar esse preço por decreto, para baixo, falseia o cálculo econômico: sinaliza que há mais poupança real do que existe, e o resultado, na teoria austríaca dos ciclos, é investimento mal direcionado e correção dolorosa depois.

Um teto de 5,5% para a Selic é, na prática, controle de preço sobre o crédito. Hayek advertia para o problema do conhecimento: nenhum conselho, por mais qualificado, sabe qual é o juro de equilíbrio que milhões de poupadores e tomadores revelam todos os dias. Criar um Conselho Fiscal e Monetário que fixe metas conjuntas para juros, inflação e contas públicas é concentrar mais poder em um órgão de planejamento central, justamente quando a lição de Bastiat sobre o que se vê e o que não se vê pede cautela: vê-se a economia de R$ 1,4 trilhão em juros; não se vê o que acontece com a moeda, os contratos e a poupança se a credibilidade falhar.

Há uma verdade incômoda no argumento de Lara Resende, e ela deveria ser lida pelo governo: o custo da dívida é alto porque o Estado deve muito e o mercado cobra risco para financiá-lo. Os juros são sintoma. O caminho coerente com a responsabilidade individual e a segurança jurídica é reduzir o gasto e a dívida, o que faz o prêmio de risco cair por si, em vez de proibir o credor de cobrar. Quem paga a conta de uma inflação mais alta, se o experimento der errado, é o trabalhador e o pequeno poupador, e não o Tesouro.

Mesmo assim, vale o debate aberto: é positivo que um presidente ouça críticas ao próprio Banco Central. O mesmo rigor vale para qualquer governo, de qualquer partido, que tente resolver um problema de gasto com mudança nas regras da moeda.