Os Estados Unidos votam nesta terça-feira (3) nas eleições de meio de mandato, e o Texas é um dos estados mais observados. O motivo é o eleitorado hispânico, que em 2024 ajudou a dar ao presidente Donald Trump um dos seus melhores resultados e que, segundo reportagem da BBC publicada no fim de semana, mostra sinais de afastamento do Partido Republicano.

O voto hispânico que mudou o Texas em 2024

De acordo com a BBC, Trump conquistou cerca de 55% dos votos hispânicos no Texas, o que seria um recorde para um candidato presidencial republicano. A reportagem atribui esse desempenho, em parte, à promessa de conter as travessias irregulares na fronteira. Sob o governo do ex-presidente Joe Biden, mais de dois milhões e meio de detenções foram registradas em um único ano; hoje, as travessias estão no nível mais baixo em décadas, e a reportagem afirma que Trump cumpriu em grande parte essa promessa.

Até o prefeito republicano de McAllen, Javier Villalobos, reconheceu o efeito na fronteira: disse ter agradecido publicamente ao governo por garantir a segurança da região.

Deportações e custo de vida mudam o humor

A mesma reportagem registra que parte desse apoio diminuiu. Pesquisas realizadas desde o fim do verão, segundo a BBC, indicam que a maioria dos eleitores hispânicos do Texas desaprova o presidente e que prefere os democratas por margem significativa.

Dois temas aparecem nos relatos colhidos no Vale do Rio Grande:

  • Ações do ICE. Dados do Deportation Data Project indicam que o Texas respondeu por aproximadamente um terço das prisões feitas pelo serviço de imigração em todo o país em julho de 2026, mais do que qualquer outro estado. O padre Roy Snipes, da capela de La Lomita, criticou em sermão as detenções de "pessoas pobres e boas que são nossos vizinhos". Villalobos, por sua vez, disse que a maioria apoia a deportação de criminosos, mas que o problema surge quando se deporta quem é produtivo e respeita a lei.
  • Preços. Em uma festa local, um casal ouvido pela BBC atribuiu o aumento dos custos ao presidente. Pesquisas citadas pela reportagem colocam economia e custo de vida no topo das prioridades dos eleitores.

O empresário mexicano-americano Mario Guerrero, que votou em Trump três vezes, disse à BBC que pretende votar nos democratas. Ele se descreve como independente e afirmou que um conhecido, que tinha 35 funcionários, hoje teria sorte se conseguisse que de quatro a seis aparecessem para trabalhar. O consultor republicano Mike Madrid lembrou que os latinos se identificam como independentes mais do que qualquer outro grupo.

Distritos redesenhados em teste

A BBC lembra que a crença numa migração permanente dos hispânicos para o Partido Republicano levou Trump a pressionar estados como o Texas a redesenhar os distritos eleitorais antes do censo decenal. O 15º distrito, no Vale do Rio Grande, foi redesenhado em 2025 para ter, em tese, 18 pontos de vantagem republicana. Mesmo assim, pesquisas atuais, segundo a reportagem, apontam vantagem democrata de cinco ou seis pontos.

O candidato democrata, Bobby Pulido, é cantor de música tejana e ganhou dois Grammy Latinos. Ele disse à BBC que concentra a campanha em economia e se afastou da imagem nacional do partido. No distrito vizinho, o 28º, o republicano Tano Tijerina atribuiu a Trump o mérito de "ter superado barreiras", mas admitiu que "os ventos contrários da política nacional são reais".

A disputa pelo Senado

O Texas não elege um senador democrata há mais de 30 anos. Pesquisas divulgadas em agosto, segundo a imprensa americana, mostravam o democrata James Talarico numa disputa apertada com o republicano Ken Paxton, com diferenças dentro ou perto da margem de erro. A BBC ressalva que, se as pesquisas estiverem certas, "não há garantia disso", e que mesmo uma pequena virada poderia ter efeito além do estado. Nenhum resultado foi divulgado até a publicação deste texto.

Análise

A reportagem expõe um limite do bipartidarismo: eleitores que aprovam segurança de fronteira e rejeitam a forma da fiscalização migratória são obrigados a escolher um pacote fechado. Do ponto de vista liberal, vale separar os dois temas. Controlar quem entra é função legítima do Estado; fazê-lo com detenções que atingem trabalhadores sem antecedentes e sem o devido processo agride liberdades individuais e, como mostra o relato de empresários locais, tem custo econômico direto.

Há ainda a questão dos mapas. O redesenho de distritos no meio da década, feito por qualquer partido, tenta escolher eleitores antes que eles escolham representantes. Se o eleitor mudar de ideia, o desenho pode falhar; é o melhor argumento a favor de regras neutras e transparentes para delimitar distritos.