A reação de Lula ao ser chamado de "nove dedos" e as propostas de Flávio Bolsonaro para a segurança pública estiveram entre os momentos mais bem avaliados do debate da TV Globo, realizado na sexta-feira (23), em pesquisas qualitativas consultadas pelo jornal O Globo. Pesaram contra o presidente o aparente cansaço e, contra o senador, o episódio em que ele chamou a mãe de uma criança morta pelo nome da própria filha. Os levantamentos, porém, mostram que boa avaliação de desempenho nem sempre vira voto.

O que são os levantamentos

Pesquisas qualitativas reúnem pequenos grupos de eleitores para entender percepções e motivações; não medem o tamanho do eleitorado nem servem para prever o resultado. Um dos estudos, do Instituto Locomotiva, foi apresentado por Renato Meirelles. O outro ouviu 80 eleitores de 25 a 45 anos, divididos em oito grupos em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife, entre indecisos, quem votou em branco ou nulo no primeiro turno e apoiadores dispostos a mudar de voto. Esse segundo estudo foi relatado por um pesquisador do mercado financeiro que pediu anonimato.

Os momentos de maior aprovação

Para Meirelles, o ponto mais forte da noite foi a resposta de Lula aos "nove dedos": "Quando ele trocou a ofensa pela história de quem perde um dedo na fábrica, agradou até quem não gosta dele". A provocação, segundo ele, soou insensível. No estudo com 80 eleitores, a cobrança de desculpas foi o momento de maior aprovação do presidente.

Do lado de Flávio, o Locomotiva registrou boa recepção às propostas de redução da maioridade penal e de penas mais duras. No grupo de 80, a maior aprovação veio de promessas regionais: reajuste do salário mínimo e das aposentadorias acima da inflação, prevenção de enchentes no Rio Grande do Sul, melhorias em rodovias de Santa Catarina, uso da Marinha contra o tráfico no Porto de Paranaguá e saneamento no Norte.

Os pontos negativos

Os dois estudos apontaram o aparente cansaço de Lula, com pouca energia e dificuldade de controlar o tempo das respostas, além de incômodo com a exaltação do petista. O pior momento de Flávio, entre os 80 participantes, foi quando Lula o questionou sobre sua atuação na defesa do policial militar acusado do tiro de fuzil que matou Ana Clara, de cinco anos, em Niterói, em 2021. Ao tentar se solidarizar com a mãe da menina, presente na plateia, o senador a chamou pelo nome da filha. O Locomotiva registrou rejeição maior entre as mulheres e desgaste com as referências insistentes ao uísque e à religião. Parte dos participantes achou Flávio mais consistente, mas viu respostas ensaiadas, como se falasse para a câmera.

Indecisos seguem indecisos

Ao fim do debate, 60 dos 80 participantes (75%) continuavam sem definir o voto; os outros 20 se dividiram. Esse número vale apenas para o grupo, não para o país. Meirelles resume: "A percepção mudou mais do que o voto". Segundo ele, o dilema dos indecisos é querer mudança com medo de mudar para pior. As acusações de corrupção trocadas pelos candidatos não convenceram: "Virou empate: cada um acusa, ninguém convence". Os eleitores cobraram detalhes de como as propostas seriam executadas, citando a promessa de Flávio de cortar gastos preservando programas sociais, e sentiram falta de debate sobre inteligência artificial e emprego.

Análise

Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.

O recado dos grupos é um bom lembrete para quem pede o voto: o eleitor quer saber como a conta fecha. Cortar gastos sem tocar em programas sociais, ou ampliar benefícios sem dizer de onde sai o dinheiro, é uma promessa que vale a mesma cobrança para os dois lados. Um debate decidido por emoção e frase de efeito deixa em segundo plano o que mais importa para a liberdade econômica e para as contas públicas: previsibilidade, regras claras e compromisso fiscal verificável.