"Qual governo gastou mais no cartão corporativo, o de Lula ou o de Bolsonaro?" é uma das perguntas mais repetidas da campanha. A resposta honesta é que depende do que se mede. Checagens do Aos Fatos mostraram que posts virais comparam números de naturezas diferentes. Veja três recortes e por que eles não batem.

1. Todos os cartões do governo federal

Segundo o Aos Fatos (fevereiro de 2026), o governo Lula gastou cerca de R$ 1,4 bilhão em cartões entre 2023 e 2025 (R$ 430 milhões em 2023, R$ 584 milhões em 2024 e R$ 423 milhões em 2025), com mais de 6,4 mil servidores autorizados. O governo Bolsonaro, somando os três tipos de cartão em quatro anos, ficou perto de R$ 1 bilhão em valores nominais. Em termos gerais, portanto, as cifras são da mesma ordem de grandeza.

2. Só a Presidência, no cartão de pagamento (CPGF)

É o recorte que mais aparece em posts. Pelo Portal da Transparência, consultado pelo Aos Fatos em fevereiro de 2026, a Presidência de Bolsonaro gastou cerca de R$ 42 milhões no CPGF entre 2019 e 2022 (cerca de R$ 48 milhões corrigidos pela inflação). Para Lula, o mesmo levantamento achou R$ 20,4 milhões entre 2023 e 2025.

Outras fontes mostram números maiores. A Gazeta do Povo, citando dados do TCU, fala em R$ 55,4 milhões no mandato atual (julho de 2026). Já a Times Brasil | CNBC, com dados do Portal da Transparência até a fatura de agosto de 2026, soma R$ 84,5 milhões desde 2023 na Presidência como um todo, incluindo Abin, GSI e Vice-Presidência, o que dá cerca de R$ 74 milhões só em 2023–2025. O Aos Fatos chegou a R$ 45,2 milhões para o mesmo período e a mesma abrangência. As matérias não explicam a diferença, que pode vir de órgãos incluídos ou da data da consulta, mas isso não está confirmado.

3. Ranking corrigido pela inflação

A Gazeta do Povo publicou um ranking do cartão corporativo da Presidência corrigido pela inflação: Lula 1 (R$ 70 milhões), Lula 2 (R$ 57 milhões), Dilma 1 (R$ 50 milhões), Bolsonaro (R$ 39 milhões), Temer (R$ 18 milhões) e Dilma 2 (R$ 12 milhões). O terceiro mandato de Lula, com R$ 55,4 milhões até o momento, ficaria no meio da lista, e o jornal projeta um possível recorde se o ritmo se mantiver. É uma projeção, não um fato, e o índice de correção não foi informado. Note que o valor de Bolsonaro (R$ 39 milhões) difere do citado pelo Aos Fatos (cerca de R$ 48 milhões), o que mostra como a metodologia muda o resultado.

O que dizem as checagens

Em novembro de 2023, o Aos Fatos classificou como falso um vídeo viral que dizia que Bolsonaro gastou R$ 5 milhões em quatro anos e Lula R$ 14,8 milhões em dez meses. Os números vinham de fontes e períodos diferentes. Em fevereiro de 2026, outro post comparou R$ 1,4 bilhão de Lula com R$ 27,6 milhões de Bolsonaro; o Aos Fatos o classificou como enganoso, porque o primeiro soma todo o governo e o segundo só a Presidência.

O ponto central: o sigilo

Dados do Portal da Transparência analisados pela Times Brasil | CNBC indicam que R$ 83,4 milhões (98,6%) dos gastos da Presidência desde 2023 estão marcados como sigilosos, sem fornecedor identificado. Segundo auditorias do TCU citadas pela Gazeta do Povo e pela Times Brasil, cerca de 99,5% das despesas de cartão entre janeiro de 2023 e abril de 2025 têm algum grau de sigilo. A Gazeta registra que o TCU não apurou irregularidades até agora. Os gastos do governo Bolsonaro, por sua vez, só foram divulgados em janeiro de 2023, depois do fim do mandato.

Análise: o problema não é de um lado só

Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.

Para quem defende um Estado enxuto e controlado pelo cidadão, a discussão sobre quem gastou R$ 10 milhões a mais perde importância diante de um fato mais grave: quase nenhum gasto de cartão pode ser conferido, antes ou agora. Sigilo é exceção, para segurança de verdade, e não regra. Quem paga a conta tem o direito de saber em que ela foi gasta, seja no governo do PT ou no do PL. Um cartão com 99% de despesas escondidas torna impossível qualquer comparação honesta, e é isso que alimenta a guerra de números nas redes.

Para comparar corretamente, a regra é usar o mesmo cartão, o mesmo conjunto de órgãos, o mesmo número de meses e valores corrigidos pelo mesmo índice. Como o mandato atual ainda não terminou, qualquer ranking hoje é parcial.