A economia brasileira cresceu, o desemprego caiu ao menor nível da série histórica e a renda média do trabalho avançou durante o terceiro mandato de Lula, segundo balanço do g1 publicado após a reeleição. Ainda assim, a vitória sobre Flávio Bolsonaro (PL) foi apertada, e o governo enfrenta o que o g1 chama de paradoxo: bons indicadores que não viraram sensação generalizada de bem-estar.
O que melhorou
O país acumulou três anos seguidos de crescimento, o emprego formal se expandiu e a renda real subiu. Para Silvia Matos, do FGV/Ibre, a média esconde diferenças: "O PIB é uma média que reúne setores e famílias que estão, digamos, uns no micro-ondas e outros que estão no freezer". Segundo José Luis Oreiro, da UnB, boa parte das novas vagas surgiu em serviços de menor qualificação. O salário mínimo de R$ 1.621 ainda está próximo, em termos reais, dos níveis de 2012 e 2013, apesar dos reajustes acima da inflação.
Dívidas e juros
Em julho de 2026, as famílias destinaram 28,7% da renda ao pagamento de dívidas (17,2% de principal e 11,5% de juros), perto do recorde de 29,7% de fevereiro, segundo o Banco Central. A fatia de famílias endividadas passou de 78% em janeiro de 2023 para 81,7% em setembro, de acordo com a Peic; o cartão de crédito está presente em 85,2% desses casos. O governo lançou três edições do Desenrola, que, para Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, aliviam no curto prazo, mas não mudam as condições que levam ao endividamento.
A Selic começou 2023 em 13,75%, caiu a 10,5% em 2024, subiu a 15% em 2025 e estava em 13,75% perto do segundo turno, segundo o g1.
Contas públicas
O Governo Central teve déficit primário de R$ 228,5 bilhões em 2023, R$ 42,9 bilhões em 2024 e R$ 61,7 bilhões em 2025, e de R$ 94,9 bilhões entre janeiro e agosto de 2026. A Dívida Bruta chegou a 82,9% do PIB (R$ 11,1 trilhões) em agosto; a Gazeta do Povo informa que ela estava em 71,7% no início do mandato e lembra que o governo criou ou aumentou impostos para ampliar a arrecadação. Para Matos, a PEC da Transição ampliou o desequilíbrio ao abrir espaço fora do teto sem indicar receitas permanentes. Oreiro vê limites no arcabouço fiscal e defende olhar também o custo dos juros da dívida.
Pontos positivos apontados
Os economistas convergem em elogiar a reforma tributária sobre o consumo, vista como "a reforma possível". Matos destacou a manutenção da autonomia do Banco Central sob Gabriel Galípolo, e Oreiro observou que a política monetária ficou mais ortodoxa do que na gestão anterior. Sobre a Nova Indústria Brasil, Oreiro avalia que não elevou de forma significativa a participação da indústria de transformação no PIB, em parte por causa de juros altos e do real valorizado.
O que está em jogo agora
Na campanha, Lula defendeu continuidade e ajuste gradual com crescimento e arrecadação; Flávio propôs corte de gastos, redução de ministérios de 38 para 25 ou 26, privatizações e menos impostos, segundo a Gazeta do Povo. Com a vitória de Lula, o mercado reagiu mal nesta segunda-feira: veja a cobertura da Bolsa e do dólar.
Análise
Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.
Os dados mostram um governo que colheu emprego e renda, mas pagou a conta em dívida e juros. Do ponto de vista liberal, crescimento sustentado por gasto público e crédito caro tem fôlego curto: a dívida subiu mais de 11 pontos do PIB, a Selic permanece alta e quem mais sente são as famílias endividadas. Há também méritos a reconhecer: a reforma tributária e a preservação da autonomia do Banco Central são ativos institucionais que reduzem risco. O segundo mandato será avaliado pela capacidade de conter despesas obrigatórias e dar transparência às contas, e não só pela taxa de desemprego. O critério vale para qualquer governo.