O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira (6) que Stephen Miller, até agora vice-chefe de gabinete da Casa Branca, será o novo chefe de gabinete, no lugar de Susie Wiles. O anúncio saiu três dias depois das eleições de meio de mandato, em que os republicanos perderam o controle do Congresso, segundo a imprensa americana.
O que foi anunciado
Trump comunicou a mudança pelo Truth Social. De acordo com a NBC News, Miller assume o posto na segunda-feira (9). Um funcionário da Casa Branca disse ao veículo que Wiles apresentou o pedido de demissão na noite de quinta-feira (5). Trump elogiou o trabalho dela, disse que foi "excelente" e afirmou que ela passará a atuar na operação política do presidente. Wiles escreveu no X que servir ao presidente na Casa Branca foi "a honra de uma vida" e que seu compromisso com ele e com a missão não muda.
Wiles, de 69 anos, foi a primeira mulher a chefiar o gabinete da Casa Branca e ficou mais tempo no cargo do que os quatro chefes de gabinete do primeiro mandato de Trump, conforme PBS e NBC. Em meados de outubro, o presidente havia dito que ela ficaria no cargo "até o fim", o que desmentia a especulação sobre sua substituição.
A Folha de S.Paulo informa que Wiles é a sexta integrante do primeiro escalão a deixar o governo de forma turbulenta. Antes dela, saíram Pam Bondi (Justiça), Kristi Noem (Segurança Interna), Lori Chavez-DeRemer (Trabalho), Tulsi Gabbard (Inteligência Nacional) e Katie Zacharia (porta-voz). Segundo o jornal, todas foram substituídas por homens, menos Zacharia, cujo cargo continua vago.
Quem é Stephen Miller
Miller entrou na campanha presidencial de Trump em 2016, inicialmente como redator de discursos, e tinha sido assessor do então senador Jeff Sessions, que depois seria o primeiro procurador-geral do governo Trump. Está entre os integrantes mais antigos e próximos do círculo do presidente e é apontado como o principal arquiteto da política de imigração linha-dura, incluindo a campanha de deportações em massa.
Segundo a NBC, em maio de 2025 ele pressionou funcionários do ICE, o serviço de imigração e alfândegas, a elevar prisões e deportações, cobrando 3 mil detenções por dia. A Folha lembra que o Southern Poverty Law Center, organização que cataloga grupos de ódio nos EUA, o classifica como extremista antimigração. A NBC relata que, depois que agentes federais mataram os cidadãos americanos Renee Good e Alex Pretti em Minneapolis, em janeiro, Miller reduziu a exposição pública; ele havia chamado Pretti de "terrorista doméstico" e depois atribuiu o erro a informações incorretas recebidas da CBP, a agência de fronteiras.
Contexto: a derrota nas urnas
Os democratas conquistaram maioria no Senado e na Câmara na terça-feira (3). Pelo relato da Folha, parte do Partido Republicano passou a defender a leitura de que os eleitores puniram o governo pela alta de preços, em parte atribuída à guerra no Irã, e não pela atuação dura contra imigrantes. O vice-presidente J. D. Vance escreveu na quarta (4) no X que políticos tradicionais dirão que anistia é a solução, mas que "qualquer pessoa que tentar falar em anistia está mentindo". Vance disse estar aberto a mudar a forma de aplicar a lei, com mais foco nas empresas que contratam trabalhadores ilegais. Nesta sexta, ele parabenizou Miller por uma "promoção merecida".
Na véspera da eleição, Miller publicou no X um apelo para que eleitores fossem às urnas contra o que chamou de "mídia corrupta" e "democratas corruptos". Na última publicação antes da promoção, atacou a decisão do governador da Califórnia, Gavin Newsom, de comutar as penas de morte de 538 condenados para prisão perpétua.
Reações
O líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que deve se tornar presidente da Casa em janeiro, chamou Miller de "xenófobo perigoso" e "extremista irresponsável" no X e pediu que ele fosse demitido. Steve Bannon, ex-assessor de Trump, disse que Miller "assume o controle imediatamente", segundo a NBC. Um aliado do presidente afirmou ao veículo que o novo chefe de gabinete tende a ser combativo com o Congresso, sobretudo diante de investigações pedidas por democratas. A Casa Branca não detalhou, nas reportagens consultadas, mudanças de política associadas à nomeação.
O que vem a seguir
Miller assume na segunda-feira (9). A partir de janeiro, a Câmara passa ao comando democrata, o que deve aumentar o atrito entre Legislativo e Executivo. A tarefa de preencher a vaga de porta-voz, aberta com a saída de Katie Zacharia, segue pendente.
Análise
Um chefe de gabinete não é eleito, não responde a ninguém além do presidente e, ainda assim, controla a agenda, o acesso e o fluxo de decisões do Executivo. Concentrar esse poder em quem também é o formulador da política migratória mostra como a máquina federal depende de pessoas, e não de regras. Hayek chamava atenção para o problema do conhecimento: nenhum planejador central, por mais dedicado, reúne a informação dispersa que milhões de pessoas usam em suas decisões. Uma meta de 3 mil prisões por dia, ditada do alto da Casa Branca, é um exemplo de metas numéricas impostas de cima sem considerar as circunstâncias de cada caso.
Pelo princípio da não agressão, o Estado só se justifica ao proteger pessoas e propriedade contra a força e a fraude. Fazer cumprir a lei de imigração é função legítima de governo, mas o respeito ao devido processo, à presunção de inocência e à proporcionalidade não é detalhe: os episódios de Minneapolis, em que cidadãos americanos morreram em operações federais, mostram o custo quando a execução supera os limites do Estado de Direito. A retratação sobre o caso Pretti também lembra que o poder público deve provar o que afirma antes de rotular alguém.
Há ainda a questão econômica que as próprias reportagens apontam. Tarifas, guerra e deportações em massa elevam custos e pressionam preços; Bastiat pediria que se olhasse não só o que se vê, a medida dura anunciada, mas o que não se vê: o consumidor que paga mais, a empresa que perde mão de obra e o contribuinte que financia a operação. O mesmo critério vale para qualquer governo: quem defende menos Estado deveria desconfiar de um aparato que cresce em poder e em gasto, seja qual for o partido no comando.
A nomeação também é um teste de freios e contrapesos. Com a Câmara nas mãos da oposição a partir de janeiro, a fiscalização parlamentar e as cortes terão papel central para que a concentração de poder no Executivo não se transforme em arbítrio.



