A senadora Tereza Cristina (PP-MS) manteve a candidatura à presidência do Senado, mesmo depois de o PL lançar oficialmente o líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN), na quarta-feira (4). A eleição está marcada para 1º de fevereiro de 2027 e, se vencer, ela será a primeira mulher a comandar a Casa. O atual presidente, Davi Alcolumbre (União-AP), busca a reeleição. A reportagem anterior do Tendência News sobre a reorganização da direita está em Após a saída de Flávio Bolsonaro, quem disputa espaço na direita e a eleição para o comando do Senado.

O que mudou nos últimos dias

Segundo a CNN Brasil, uma reunião entre Marinho e Tereza Cristina na semana passada terminou sem acordo para que um dos dois retirasse o nome. O ND Mais registrou que, na terça-feira (3), a senadora confirmou que continua na disputa, disse que segue conversando com Marinho e pediu paciência, lembrando que "ainda faltam 90 dias" para a votação. O Tempo informou que Marinho afirma que os dois estão "do mesmo lado" e devem convergir, e que um arranjo para 2027 e 2029 segue em discussão.

Na quarta-feira (4), de acordo com os veículos consultados, ela disse que pretende pedir o voto de Alcolumbre, a quem já teria dito que ele precisava ter uma mulher como sucessora.

Os três blocos

  • Alcolumbre: conta com o apoio formal da federação União Brasil-PP, anunciado em 27 de outubro em nota conjunta de Antonio Rueda e Ciro Nogueira, segundo O Tempo. A coluna do Estadão afirma, porém, que nem Nogueira nem Rueda votarão na disputa, já que não terão mandato de senador a partir de 2027, e que a candidatura de Tereza foi dada com a anuência de Nogueira. O Tempo diz ainda que ele busca votos em MDB, PSD, PT e, segundo a Folha de S.Paulo, até entre senadores do PL.
  • Marinho: foi lançado pela bancada do PL, com apoio do Novo. O PL terá 29 das 81 cadeiras, a maior bancada, mas precisa de 41 votos. Ele defende voto aberto para a Mesa Diretora, o que dificultaria acordos reservados de senadores do próprio partido com outros candidatos, e apoia responsabilizar ministros do STF e anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023.
  • Tereza Cristina: tenta se posicionar como "terceira via". Aliados citados pela CNN Brasil dizem que ela pode atrair partidos do Centrão que resistem a Marinho, mas também não querem a reeleição de Alcolumbre, e que tem bom trânsito até entre aliados do governo. A coluna do Estadão diz que o nome é visto com bons olhos por parlamentares do PL, inclusive Michelle Bolsonaro, senadora eleita pelo Distrito Federal, e que ela conversa com os senadores eleitos, em especial as 12 mulheres.

Divergência sobre o STF

De acordo com a CNN Brasil, Tereza discorda tanto de bloquear a pauta de impeachment de ministros do STF, o que associa a Alcolumbre, quanto de torná-la a prioridade número um do Senado no próximo ano, como propõe Marinho. Ela defende discutir o tema ao lado de uma ampla agenda de reformas econômicas. A coluna do Estadão acrescenta que ela tem simpatia de ministros do Supremo e de interlocutores do presidente Lula, em parte por ter relatado o acordo Mercosul-União Europeia.

Matemática e voto secreto

Aliados de Tereza dizem à CNN Brasil que nem Alcolumbre nem Marinho têm hoje os 41 votos, e que há senadores contando com os dois. Pelo regimento, a votação é secreta (o ND Mais registra que o PL queria votação aberta para identificar eventuais dissidentes), o que torna incerto converter apoios partidários em votos. Segundo O Tempo, 40 das 54 vagas disputadas em outubro (74%) vão para novos senadores, o que reduz a previsibilidade. A estratégia descrita por aliados é manter a candidatura até o fim, ganhar força e depois convencer Marinho a desistir e apoiá-la; a própria senadora admite que seus apoiadores podem se dividir entre Alcolumbre e Marinho.

O que vem a seguir

Os próximos passos são a definição de uma eventual candidatura única da oposição, a posição final da federação União-PP e a contagem de votos entre os 40 novos senadores, antes da eleição de 1º de fevereiro de 2027. Os envolvidos não haviam anunciado desistências até as reportagens consultadas.

Análise

O voto secreto na escolha do comando do Senado é um problema de prestação de contas: o eleitor escolhe senadores, mas não consegue saber quem eles escolheram para controlar a pauta, as comissões e o ritmo de votação das leis que o afetam. Quem concentra esse poder decide, na prática, o que chega ao plenário, inclusive pedidos de responsabilização de autoridades, e o argumento de Hayek sobre o conhecimento disperso vale aqui: o poder de agenda deveria ser exercido de forma visível, para que se possa corrigir erros. Defender voto aberto, como faz o PL, é coerente com a transparência, e a regra deveria valer igualmente para qualquer bloco que dela se beneficie.

A disputa também mostra como a política se organiza em torno de cargos e acordos, e não de princípios. A discussão que interessa ao contribuinte é a agenda: reforma tributária, teto de gasto, segurança jurídica e limites ao Estado. Tereza Cristina fala em reformas econômicas e Marinho prioriza a responsabilização do STF; as duas pautas têm lugar, mas o Senado só cumprirá bem sua função de freio e contrapeso se o presidente da Casa tratar o Estado de Direito com o mesmo critério para todos os Poderes, governo e oposição.

Por fim, a recondução ou a troca do presidente tende a pesar sobre o que o governo consegue aprovar em matéria de gasto e imposto. Como ensina Bastiat, o que se vê é o nome vencedor; o que não se vê são as propostas que deixam de ser votadas por acordos de bastidor. Cabe ao eleitor cobrar de cada senador, publicamente, que agenda de menos impostos e menos Estado pretende sustentar.